William Bourdon, um dos advogados que defende Rui Pinto, confirmou, nesta segunda-feira, que a justiça francesa fez uma cópia dos documentos do colaborador do Football Leaks e que todas as informações vão chegar “dentro de dias” ao Eurojust.

Em declarações prestadas no debate subordinado ao tema “Football Leaks e a proteção dos denunciantes – o papel de Rui Pinto”, em Lisboa, no qual estiveram presentes o também advogado Francisco Teixeira da Mota, a eurodeputada portuguesa Ana Gomes e o denunciante Antoine Deltour, o representante jurídico internacional de Rui Pinto vincou a atenção que as autoridades de diversos países têm sobre este caso.

Sim, confirmo a cópia dos documentos [pela justiça francesa] e essa informação deve estar dentro de dias nas mãos do Eurojust”, afirmou Bourdon.

Questionado sobre os detalhes da colaboração estabelecida entre Rui Pinto e as autoridades gaulesas antes da detenção, William Bourdon garantiu que é uma ligação ativa e que existe interesse num novo contacto com o suspeito indiciado em Portugal pela prática de quatro crimes: acesso ilegítimo, violação de segredo, ofensa à pessoa coletiva e extorsão na forma tentada.

Ele foi a Paris, onde foi ouvido pelo procurador durante cerca de duas horas. Não vou dar detalhes, mas foi uma conversa produtiva. O procurador francês quer vir cá, passar tempo com ele e ouvi-lo, tal como o procurador belga. Os contribuintes portugueses devem perceber que é do seu interesse ver este inquérito avançar”, sublinhou.

Paralelamente, William Bourdon revelou ter estado esta manhã com Rui Pinto, que está sob prisão preventiva nas instalações da Polícia Judiciária, e elogiou a coragem e a inteligência do colaborador do Football Leaks.

Estou muito orgulhoso por defender Rui Pinto, ele é um bom rapaz, muito gentil, inteligente, lúcido e estamos muito felizes por defendê-lo. Tenho defendido Antoine Deltour, Edward Snowden e Hervé Falciani e posso dizer firmemente que Rui Pinto pertence a este clube restrito de ‘whistleblowers’ mais proeminentes deste século”, finalizou.

Rui Pinto foi detido na Hungria e chegou a Portugal na quinta-feira, com base num mandado de detenção europeu emitido pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).

Na base do mandado estão acessos ilegais aos sistemas informáticos do Sporting e do fundo de investimento Doyen Sports e posterior divulgação de documentos confidenciais, como contratos de futebolistas do clube lisboeta e do então treinador Jorge Jesus, além de outros contratos celebrados entre a Doyen e vários clubes de futebol.

O colaborador do Football Leaks terá entrado, em setembro de 2015, no sistema informático da Doyen Sports, com sede em Malta, e é também suspeito de aceder ao endereço de correio eletrónico de membros do Conselho de Administração e do departamento jurídico do Sporting e, consequentemente, ao sistema informático da SAD leonina.

No período em que esteve detido na Hungria, Rui Pinto assumiu ser uma das fontes do Football Leaks, plataforma digital que tem denunciado casos de corrupção e fraude fiscal no universo do futebol, no âmbito dos quais estava a colaborar com autoridades de outros países, nomeadamente, França e Bélgica.

Ana Gomes teme novas “disfunções da justiça”

A eurodeputada portuguesa Ana Gomes manifestou hoje o receio de que Rui Pinto, colaborador do Football Leaks, possa não ter um tratamento correto pelas autoridades nacionais e alertou para recentes “disfunções da justiça”.

Numa intervenção realizada no âmbito do debate “Football Leaks e a proteção dos denunciantes – o papel de Rui Pinto”, Ana Gomes assumiu ter confiança na justiça, mas também garantiu não ser ingénua.

Tenho [confiança] e tenho de ter, mas também sei que a criminalidade e a corrupção estão infiltradas em certos setores, como o desporto, a política e a economia. Mas não sou ingénua, e há gente criminosa infiltrada, o que explica algumas disfunções da justiça ultimamente”, disse, reafirmando a sua suspeição anteriormente manifestada a propósito do caso e-toupeira.

Apelando à proteção jurídica dos denunciantes e incluindo Rui Pinto sob este estatuto, a eurodeputada portuguesa anunciou também que o Parlamento Europeu vai votar em abril uma diretiva que vai criar mecanismos de defesa para estes indivíduos.

Esta diretiva que vai ser aprovada remete também, especificamente, para outras diretivas que estão em vigor, nomeadamente a quarta diretiva, contra o branqueamento de capitais e financiamento de terrorismo em todos os países europeus. Imagino que muitas das questões que o Rui Pinto tenha a transmitir às autoridades tenham a ver com branqueamento de capitais”, acrescentou.

O também advogado de Rui Pinto, Francisco Teixeira da Mota, garantiu que a segurança do seu cliente “está absolutamente salvaguardada". "Está numa cela sozinho, os tempos de intervalo são diferentes dos outros reclusos e não tem encontrado um ambiente de hostilidade”, indicou.

A terminar, Francisco Teixeira da Mota negou ter conhecimento de qualquer pedido de cooperação das autoridades tributárias portuguesas em relação ao colaborador do Football Leaks.