O hacker Rui Pinto vivia "em condições humildes" e "particularmente difíceis" na Hungria. Quem o diz é Luís Neves, diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), que foi ouvido esta quarta-feira como testemunha arrolada pela defesa do criador do Football Leaks, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.

Rui Pinto tinha apenas dois pares de calças, uns ténis. Percebi que tinha dificuldades" e acrescentou "Pela família percebe-se que são pessoas humildes", disse no depoimento prestado na 41.ª sessão do julgamento.

Luís Neves explicou que só percebeu as dificuldades em que o hacker vivia quando falou com ele durante a fase de instrução, sobre a negociação para colaborar com a PJ e ainda sobre a prisão preventiva. Até esta altura não tinha havido qualquer contacto entre a judiciária e o arguido, garantiu em tribunal.

"Mudou completamente a atitude durante a fase instrução"

O diretor nacional da PJ disse que Rui Pinto tem "uma grande memória" e que está a colaborar de forma "genuína" com as autoridades e com o Ministério Público (MP).

Em termos informáticos é uma pessoa muito evoluída. (...) É uma pessoa com conhecimentos e muito preocupação(...) sobretudo na área social, incomodava-o a desigualdade, relativamente a Angola e os branqueamentos as fraudes fiscais"-

 

Tem uma memória muito grande, relativamente a factos, é uma pessoa muito capaz consegue estabelecer conexões", acrescentou. 

Explicou com esta "colaboração genuína" começou antes do julgamento, que continuam, e que Rui Pinto mudou de atitude durante a fase de instrução, deixando de lado a "opinião extremada"

Mudou completamente a atitude durante a fase instrução. Deixou de ter opinião extremada. De fase total de fechamento para abertura e diálogo".

 

Não podemos escamotear isso, por muito que um ou outro possa não gostar, e tem tido uma colaboração efetiva, relevante e importante. Com o conhecimento genuíno que tem e que procura transmitir, até do ponto de vista preventivo”, afirmou o responsável máximo da Judiciária.

Paralelamente, esclareceu que “a polícia nunca assumiu qualquer compromisso” no âmbito desta colaboração com Rui Pinto, mas apenas com o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), organismo com o qual foram partilhados todos os resultados desse trabalho.

Questionado se hacker é uma pessoa recuperável, Luís Neves respondeu que sim: "Entendo que pode ser um cidadão que não vai voltar a praticar os crimes. É uma pessoa válida para a sociedade"

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Rui Pinto, de 32 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e foi o que levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 7 de agosto, “devido à sua colaboração” com a PJ e ao seu “sentido crítico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.