O diretor da Polícia Judiciária (PJ), Luís Neves, confirmou esta terça-feira, no Parlamento, que foi “uma encenação” a recuperação pela PJ Militar (PJM), em outubro de 2017, de parte do material militar furtado nos paióis de Tancos.

Houve uma encenação que, no decurso da investigação, foi desmontada”, afirmou Luís Neves, durante uma audição na comissão parlamentar de inquérito ao furto de Tancos, na Assembleia da República, em Lisboa.

O responsável apontou, igualmente, a incoerência de a PJ Militar ter mencionado um “telefonema anónimo” e de, no comunicado da Judiciária, ter escrito que o “achamento” se deveu a uma investigação.

Uma contradição que, disse, “adensou as suspeitas de que se tratava de uma encenação”.

Luís Neves insistiu ainda que a ação da PJM, que levou à recuperação do material, “desrespeitava a ordem e o despacho de delegação de competências” da PGR na PJ.

Durante horas, nesse dia 18 de outubro, descreveu, agentes da PJ estiveram à porta de Santa Margarida, para onde foi levado o armamento, depois de os militares terem recolhido o material, na Chamusca, que não foi analisado pela PJ, por já estar "contaminado".

O responsável pela Judiciária criticou também a forma como a PJM se comportou após o furto, em junho de 2017, admitindo que a investigação da PJ “foi destruída e esventrada” com sucessivas fugas de informação para a comunicação social, de que responsabilizou a Judiciária Militar.

Numa audição de quase três horas, Luís Neves afirmou que sentiu, da parte da PJ Militar, então dirigida pelo coronel Luís Vieira, uma “enorme repulsa” por ser a Judiciária a investigar, por decisão da Procuradora-Geral da República.

Sem nunca acusar diretamente a PJM pelas fugas de informação, o diretor da PJ afirmou que a sucessão de notícias sobre a investigação “matou” o “efeito surpresa” das investigações, que “ficou irremediavelmente perdido”.

Foi absolutamente catastrófico”, disse, referindo que “a comunicação social fez o seu trabalho”, deu notícias.

O diretor da PJ falou nestes casos após recordar reuniões em que era discutida a estratégia e, depois, “tudo o que era dito aparecia replicado na comunicação social”.

O furto do material militar, entre granadas, explosivos e munições, dos paióis de Tancos, foi noticiado em 29 de junho de 2017 e parte do equipamento foi recuperado quatro meses depois.

O caso ganhou importantes desenvolvimentos em 2018, tendo sido detidos, numa operação do Ministério Público e da Polícia Judiciária, sete militares da Polícia Judiciária Militar e da GNR, suspeitos de terem forjado a recuperação do material em conivência com o presumível autor do crime.

Este processo levou à demissão, ainda em 2018, do ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, e do chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte.

A comissão de inquérito para apurar as responsabilidades políticas no furto de material militar em Tancos, pedida pelo CDS-PP, vai decorrer até junho de 2019, depois de o parlamento prolongar os trabalhos por mais 90 dias.

Investigação finalizada em "junho ou julho"

O diretor da Polícia Judiciária, Luís Neves, admitiu que a investigação ao caso do furto de Tancos deverá estar praticamente concluída em “junho ou julho” deste ano.

Numa audição, esta terça-feira à tarde, na comissão parlamentar de inquérito ao furto de material militar em Tancos, Luís Neves disse que “em junho ou julho” espera ter “a investigação numa fase praticamente final”.

A 5 de fevereiro, o Ministério Público (MP) pediu ao tribunal que seja declarada a especial complexidade ao processo do furto das armas de Tancos, o que permitirá dilatar até ao final de setembro o prazo para a conclusão do inquérito.

Num despacho a que agência Lusa teve acesso, o MP alega que investiga criminalidade altamente organizada e que as diligências que considera imprescindíveis são impossíveis de realizar até dia 28 de março, prazo inicial para a conclusão do inquérito.

Esta terça-feira, na comissão de inquérito, o diretor da PJ afirmou que “era impossível nesta investigação, face ao número de arguidos, face ao número de material para analisar, face a tudo o que sucedeu, conduzir esta investigação apenas em seis meses”.

O processo de Tancos, que resulta da apensação do processo do furto das armas e do aparecimento das mesmas meses depois na Chamusca, conta com 20 arguidos, dos quais nove estão em prisão preventiva e um em prisão domiciliária.

Os crimes indiciados são terrorismo internacional, associação criminosa, tráfico de droga, furto, detenção e tráfico de armas, tráfico de influência, e denegação de justiça e prevaricação, falsificação de documento e abuso de poder.

Atualmente, o inquérito, segundo o documento, é composto por 37 volumes e mais 50 apensos.

O caso do furto de armas, ocorrido em 2017, ganhou importantes desenvolvimentos em 2018, tendo sido detidos militares da PJM e da GNR, suspeitos de terem forjado a recuperação do material em conivência com o presumível autor do roubo, um ex-militar de nome Paulino.

O furto de material de guerra foi detetado pelo exército em 28 de junho de 2017 e o reaparecimento das armas, na região da Chamusca, a 20 quilómetros de Tancos, foi revelado quatro meses depois (18 de outubro) pela PJM, em colaboração de elementos do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé.

Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.