O dia do nascimento de Marieme e Ndeye foi avassalador para o pai, Ibrahima Ndiaye, então com 48 anos. Ele, que já tinha filhos adolescentes de um primeiro casamento, e a mulher esperavam uma menina. Era pelo menos isso que indicavam todas as ecografias. 

Às 37 semanas, a mulher entrou em trabalho de parto e foi sujeita a uma cesariana de emergência. Tudo parecia ter corrido bem, até o obstetra o chamar ao gabinete, para uma conversa particular.

A primeira surpresa foi quando o médico lhe falou em gémeas. Depois, o seu mundo desabou: as suas filhas partilhavam o mesmo corpo.

A luta de Ibrahima começou nesse dia. Primeiro, para salvar a vida das meninas, a quem todos tinham vaticinado a morte. Depois, para as proteger de supertições tão arreigadas no Senegal, onde vivia. Mais tarde, para procurar uma solução que lhes permitisse ter uma vida o mais próximo possível do normal. 

Procurou ajuda em hospitais de todo o mundo: na Bélgica, na Alemanha, nos Estados Unidos. Chegaram a pedir-lhe um milhão de dólares antes de sequer examinar as meninas.

Não imaginam quão em baixo aqueles médicos me deixaram. Quão negra a vida era, na altura. Fecharam-me todas as janelas de esperança”,  disse Ibrahima.

De França, veio mesmo a resposta que nunca esperou ler: um médico disse-lhe claramente que parasse de procurar, porque a morte de Marieme e Ndeye era inevitável.

Ibrahima conta à BBC que sentiu o chão fugir-lhe novamente debaixo dos pés. Mas não desistiu. Continuou a contactar hospitais de vários pontos do mundo e recebeu uma resposta de esperança vinda do Reino Unido. 

O doutor Paolo De Coppi, do Great Ormond Street Hospital , prometeu ver as gémeas e tentar encontrar uma solução. 

A mudança

Ibrahima tinha gasto cada tostão das suas poupanças e não tinha dinheiro nem para a viagem, nem para a estadia em Londres. Mas a primeira-dama do Senegal, Marieme Faye Sall, deu-lhe a verba inicial de que necessitava. 

Fiquei-lhe muito grato. Quando chegou a altura de dar nome às meninas, escolhi Marieme por sua causa”, revelou Ibrahima à BBC.

A família mudou-se então do Senegal para Inglaterra. As gémeas têm agora dois anos e oito meses e atualmente vivem em Cardiff, no País de Gales, onde Ibrahima enfrenta novos desafios e decisões difíceis.

O dilema de Ibrahima

As gémeas estão juntas pelo abdómen. Têm corações e pulmões separados, assim como duas colunas vertebrais. Mas partilham orgãos vitais como o fígado, bexiga e parte do sistema digestivo.

As meninas partilham também um dos braços. Ambas têm domínio sobre o braço partilhado, mas quase só Ndeye, a gémea mais forte e mais saudável faz uso dele. 

As crianças crescem como qualquer bebé da sua idade. Não andam, mas falam, gostam de cantar e de ver televisão. 

A família perdeu tudo o que tinha. A mãe das meninas viu-se obrigada a regressar ao Senegal, onde tem outro filho mais velho para cuidar. A família ficou reduzida ao pai e às duas meninas a viver no País de Gales, onde os médicos continuam à procura de uma solução. 

Sozinho com as gémeas, Ibrahima foi obrigado a pedir asilo. Viveu em albergues e recebia senhas para pedir refeições para um banco alimentar.

Perdi tudo o que tinha para dar vida às minhas filhas”, afirma Ibrahima.

Contudo, antes da tal solução chegar, Ibrahima pode ter de enfrentar um novo dilema. 

Marieme sempre teve uma saúde mais frágil do que Ndeye. O coração de Marieme está cada vez mais fraco e tem dificuldades respiratórias acentuadas. É provavelmente Ndeye quem a mantém viva, fornecendo-lhe oxigénio.

Marieme pode não sobreviver a uma cirurgia de separação. Mas também pode morrer a qualquer momento e arrastar com ela a irmã Ndeye.

O pai vê-se agora no dilema entre decidir se avança para a cirurgia de separação, de que nenhuma pode sair viva, ou se as mantém unidas e arrisca que o coração de Marieme não aguente muito mais tempo. 

O caso de Marieme e Ndeye traz à tona um conjunto de problemas científicos e éticos. Ibrahima descreve o cenário como um “buraco negro”. Não há solução que não coloque em risco a vida das meninas.

Preciso de saber que fiz tudo o que podia por elas, dando-lhes segurança e os melhores cuidados médicos. Quando me olho ao espelho, preciso de estar em paz”, refere Ibrahima, em entrevista à BBC.

Siameses em Portugal

A primeira operação de separação de gémeos siameses com êxito em Portugal, aconteceu há pouco mais de 40 anos, no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. A cirurgia foi levada a cabo pelo médico António Gentil Martins e pela sua equipa.

Eram também duas meninas, Tânia e Magda, que estavam juntas pelo abdómen e foram separadas aos cinco meses, numa cirurgia que durou mais de 12 horas. Hoje levam uma vida saudável e completamente autónoma.

A maioria dos casos de gémeos siameses já é detetável nas ecografias, mas a grande parte ainda culmina em aborto, por medo de não haver finais infelizes.

No caso de Marieme e Ndeye, Ibrahima encara os últimos quase três anos da sua vida como uma dádiva e oportunidade de aprendizagem.

Através delas, descobri o que é a vida. As minhas meninas são guerreiras e todo o mundo precisa de saber disto”, concluiu Ibrahima, na entrevista à BBC.

/ CDC e MM