Mais de metade dos portugueses considera mais benéfico esconder a sua orientação sexual numa entrevista de emprego. Apenas 41% dos profissionais LGBTQI+ sentem abertura para assumir a sua orientação sexual em contexto laboral. Mais de metade dos entrevistados pelo ManpowerGroup dizem ter visto na sua empresa comportamentos não inclusivos.

Estas são algumas das conclusões do estudo “Diversidade no Trabalho”, que revela as dificuldades da comunidade LGBTQI+ nas empresas portuguesas e mostra como muitos trabalhadores ainda têm constrangimentos em abordar o tema da orientação sexual e identidade de género em contexto empresarial.

Os constrangimentos começam logo no momento em que se candidatam a um emprego: 51,9% dos inquiridos em Portugal acreditam ser mais benéfico para o candidato esconder a orientação sexual ao longo de um processo de recrutamento e 23% dos trabalhadores nacionais afirmam mesmo já ter sido alvo de discriminação numa entrevista de emprego devido à sua orientação sexual.

“Existe obviamente o medo de não ser selecionado no recrutamento”, confirma Marta Ramos, diretora executiva da associação Ilga - Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo, que acompanha de perto estas questões. Para a comunidade LGBTQI+, “há claramente a expectativa de discriminação.” 

Os casos de discriminação nos processos de recrutamento estão entre aqueles que mais são denunciados nesta associação. As pessoas da comunidade sentem este problema na pele, por isso, se querem ou precisam de facto de um emprego, é comum esconderem a sua orientação sexual. 

A empresa "não é um espaço seguro"

Esse encobrimento continua mesmo quando já estão integradas na empresa, muitas vezes porque as pessoas não se sentem à vontade, outras vezes porque temem realmente serem alvo de discriminação. Ou seja, as pessoas LGBTQI+ sentem frequentemente que o seu local de trabalho “não é um espaço seguro” e isso "é bastante preocupante".

As empresas são feitas por pessoas que replicam os comportamentos e os preconceitos da sociedade, e a verdade é que o discurso homofóbico ainda é bastante comum no nosso dia-a-dia”, explica Marta Ramos. “As pessoas podem até não se preocupar muito com isso no quotidianot, mas têm mais medo no contexto laboral porque é o seu ganha-pão, não querem correr riscos.”

As conclusões agora reveladas pelo ManpowerGroup coincidem com os dados recolhidos através de um inquérito online europeu  realizado entre a comunidade LGBTQI+, explica Marta Ramos: neste, é possível perceber que apenas 14% dos inquiridos está à vontade em revelar a sua orientação sexual no trabalho; 59% só a revelam a algumas pessoas no contexto laboral e 27% optam por esconder a sua orientação sexual.

À pergunta: a quantos superiores hierárquicos revelou a sua orientação sexual? 67% dos inquiridos portugueses responde: nenhum. E há uma percentagem ainda maior (76%) que esconde completamente a sua orientação sexual de clientes (ou similares) no trabalho.

Discriminação: expressões homofóbicas e discrepâncias salariais

A Ilga é regularmente contactada não só por pessoas que sentem esta discriminação como por empresas que querem saber como mudar esta situação e como podem tornar-se lugares seguros para as pessoas LBGBTQI+. Segundo Marta Ramos, em Portugal apenas as grandes multinacionais e os pequenos negócios criados por elementos da comunidade LGBTQI+ têm políticas laborais de diversidade, equidade e inclusão. “Muitas empresas não têm porque não consideram necessário, não reconhecem que exista um problema.”

Isto é, em si mesmo, um problema. Antes de mais, porque “todos os locais de trabalho têm pessoas LGBTQI+. O problema é quando nós achamos que não têm. É porque não são visíveis e então temos de nos perguntar porque é que não são visíveis, porque é que escondem. Porque a heterossexualidade é visível, as pessoas não escondem a sua heterossexualidade”, explica Marta Ramos.

E, depois, porque o primeiro passo para pôr fim a qualquer tipo de discriminação é reconhecer que ela existe.

“Mesmo nas empresas que têm políticas de diversidade, equidade e inclusão e que promovem iniciativas nesse sentido como, por exemplo, associarem-se ao dia do orgulho gay, etc., existe muitas vezes um hiato entre o que são essas políticas, os procedimentos definidos, e depois a prática no local de trabalho”, sublinha Marta Ramos.

Os casos que nos chegam não são, geralmente, de discriminação direta, sistémica, mas uma discriminação indireta: as pessoas são expostas a comentários homofóbicos e a situações constrangedoras. A cultura do local de trabalho é que está errada.”

O estudo do ManpowerGroup conclui isso mesmo. Mais de metade dos entrevistados nacionais (59,5%), dizem já ter assistido a comportamentos não inclusivos no seu local de trabalho, tais como piadas ou expressões homofóbicas. E 60,4% dos entrevistados dizem inclusivamente que esse comportamento é, normalmente, realizado pelas próprias lideranças. 

Por outro lado, quando questionados sobre se já testemunharam algum tipo de discriminação na sua empresa relacionada com a orientação sexual, tal como a diferenciação salarial ou a atribuição de promoções, 29,3% dos inquiridos em Portugal responderam afirmativamente.

Mais de 20% dos trabalhadores consideram que a partilha da sua orientação sexual veio limitar as suas oportunidades de carreira.

Além disso, a identidade de género ou orientação sexual já levaram também a que 11,9% fossem vítimas de violência verbal no seu local de trabalho.

Claro que este tipo de situações afeta profundamente as pessoas e tem efeitos quer no seu bem-estar quer na sua produtividade laboral. A maioria dos inquiridos no estudo do ManpowerGroup (62,34%) consideram que um dos benefícios de assumirem a sua orientação sexual é o aumento da sua produtividade no seu local de trabalho. Da mesma forma, 85,1% do total dos inquiridos diz que um ambiente de trabalho mais diverso promove a inovação e novas ideias em contexto laboral, sendo que, quando inquirida a comunidade LGBTQI+ sobre o mesmo tópico, o valor alcança os 86%.

Portugal: uma grande diferença entre a política e a prática

Os dados do estudo do ManpowerGroup foram recolhidos através de quase 4800 respostas em 14 países (Áustria, República Checa, Alemanha, Grécia, Hungria, Israel, Itália, Portugal, Romênia, Eslováquia, Espanha, Suíça, Turquia e Reino Unido). Quando comparadas com os resultados de outros países, as respostas dos trabalhadores portugueses colocam o nosso país mais ou menos a meio da tabela. O que não deixa de ser uma desilusão, diz Marta Ramos.

Portugal é dos países mais avançados em termos de reconhecimento dos direitos dos cidadãos e de legislação para a inclusão, mas a prática ainda não acompanha a lei”, conclui Marta Ramos. “São políticas muito recentes. As políticas de inclusão começaram pelas pessoas com deficiência, depois passaram para as questões do género e para as minorias étnicas.” 

Mas o trabalho sobre a inclusão laboral da comunidade LGBTQI+ já começou e tem dado passos importantes. “Percebemos cada vez mais que as empresas querem mudar a sua cultura e contactam-nos para saberem o que podem fazer, esse é um sinal muito positivo”, diz. 

Muitas empresas já estão a promover ações de formação para que os seus funcionários tomem conhecimento das políticas da empresa e fiquem mais atentos. “É muito importante trabalhar as lógicas da diversidade e da interseccionalidade e abrir espaços de diálogo”, diz Marta Ramos. 

Neste processo, defende, as empresas devem procurar envolver as pessoas que são potenciais alvos da discriminação e ainda procurar abrir uma porta às associações da sociedade civil que se dedicam a estas comunidades. “A vida das pessoas não é compartimentada: a sua vida pessoal influencia a sua vida profissional, e aquilo que acontece na empresa tem efeitos na vida pessoal.” Portanto, se as empresas mudarem todos ficarão a ganhar.

Maria João Caetano