Esta terça-feira é o último dia da task-force criada pelo Governo para estruturar e conduzir o plano de vacinação contra a covid-19 em Portugal. Criado por despacho em novembro de 2020, o grupo reunia um núcleo de coordenação composto por elementos do Ministério da Defesa, da Administração Interna, da Direção-Geral da Saúde e  da Autoridade Nacional do Medicamento, tinha a duração de seis meses e era renovável em função do progresso da vacinação em Portugal. 

Inicialmente liderada por Francisco Ramos, ex-secretário de Estado da Saúde, seria sob a coordenação do Almirante Gouveia e Melo que a task-force viria a afirmar a importância da sua tarefa e a completá-la de forma exemplar.

À data da sua constituição, competia à task-force "entregar em 30 dias todos os documentos necessários para definir na totalidade o plano de vacinação contra a covid-19, tanto do ponto de vista da logística (armazenamento e distribuição das diferentes vacinas), como da estratégia de vacinação (identificação dos grupos alvo prioritários, administração e seguimento clínico de resultados e reações adversas)". 

Porém, logo em fevereiro de 2021, um solavanco: numa altura em que se vacinavam ainda profissionais de saúde, Francisco Ramos renunciava ao cargo por irregularidades detetadas pelo próprio no processo de seleção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, do qual era presidente da Comissão Executiva.

Foi substituído pelo então número dois, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo e, quase oito meses depois, Portugal havia de tornar-se líder mundial na taxa de população com a vacinação completa. Nessa ocasião, o vice-almirante disse aos jornalistas que não se considerava uma referência nacional, apesar de ser aplaudido muitas vezes nas deslocações que fazia aos centros de vacinação, com a sua equipa ou a acompanhar governantes. 

Essas coisas das referências, sabe quantas referências o país tem no cemitério? São muitas", respondeu. “Se, naquele momento e naquela circunstância conseguirmos fazer o melhor que podemos por todos nós e pelo nosso país, acho que somos individualmente felizes”.

Também foi apupado, mas nunca deu margem aos negacionistas: "O negacionismo e o obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos", sublinhou depois de ter sido recebido por manifestantes em Odivelas. Dizia, já em agosto: "Morreram mais de 18 mil pessoas em resultado desta pandemia. A pandemia é que é a verdadeira assassina e eu estou aqui para contribuir, pelo contrário, para esclarecer as pessoas".

No início deste mês de setembro, com o país perto de atingir os 85% de população vacinada - o limite para fazer cair algumas das restrições que ainda se mantêm devido à pandemia - Gouveia e Melo garantia que só iria despir o camuflado quando sentisse que tinha ganhado a guerra. 

Vou despir este camuflado quando sentir que de alguma forma ganhámos a guerra, ou pelo menos não a conseguimos fazer melhor. Em princípio será quando se atingir os 85% das segundas doses”, dizia o coordenador da task-force.

Numa entrevista à Associated Press, depois de ter sido referido como uma figura determinante no sucesso da vacinação contra a covid-19 em Portugal, Gouveia e Melo explicava o uso do camuflado: "Este uniforme que usei foi no sentido simbólico, para a população perceber que nós arregaçámos as mangas e vamos bater este vírus até ficarmos cansados e não conseguirmos mais, porque senão o vírus toma conta de nós e toma conta das nossas vidas", dizia. 

No dia em que se anuncia a extinção da task-force, 28 de setembro de 2021, 10 meses depois de a estrutura ter sido criada por despacho governamental, Gouveia e Melo despiu o camuflado para anunciar que Portugal já tem 84,3% da população com a vacinação completa contra a covid-19.

Na despedida, disse sair com a sensação de missão cumprida.

Acho que entrego a minha missão ao senhor primeiro-ministro, ao senhor ministro da Defesa e à senhora ministra da Saúde me entregaram. Está terminada e pronto agora fica um núcleo a fazer a transição", disse. 

Este "núcleo" a que o vice-almirante se referia será liderado pelo coronel Penha Gonçalves, que vai trabalhar diretamente com o Ministério da Saúde e com as autoridades de saúde para dar andamento à eventual vacinação das terceiras doses e vacinação da gripe.

Penha Gonçalves é médico veterinário e já se responsabilizava pelo Núcleo de Normas e Simplificação da task-force.

Aos jornalistas, ainda na sede da task-force em Oeiras, o vice-almirante fez um balanço rápido e conciso desta missão:

O balanço é agradecer à população portuguesa por ter contribuído para o processo de vacinação, agradecer aos profissionais de saúde, entre eles, os enfermeiros, mas todos os outros, os auxiliares, e a todo o Ministério da Saúde, com todos os seus organismos”. Julgo que temos de estar todos contentes por termos em conjunto feito uma coisa que vai ficar na história e agora vou-me despedir e vou voltar ao anonimato das minhas funções militares que é como deve de ser. Muito obrigada por tudo”, declarou Henrique Gouveia e Melo.

Bárbara Cruz