Depois de os enfermeiros terem acusado a ministra da Saúde de estar a fazer "bluff", agora é António Costa que garante o mesmo que Marta Temido, já que admitiu, esta sexta-feira, que o governo pode mesmo recorrer à requisição civil dos enfermeiros para "impedir o recurso ilegal à greve". Os enfermeiros têm, recorde-se, uma greve marcada às cirurgias até ao final do mês de fevereiro. 

O primeiro-ministro diz que "não se deve confundir o aquilo que é a atividade sindical com greves selvagens", mas foi ainda mais longe e defendeu que as greves atentam contra a "dignidade dos doentes"

Na manhã desta sexta-feira, o bastonário da Ordem dos médicos tinha já afirmado que "a requisição civil é desnecessária"

A greve dos enfermeiros nos blocos cirúrgicos de sete centros hospitalares começou na quinta-feira e prologa-se até 28 de fevereiro, após as negociações entre as estruturas sindicais e Governo terem terminado na quarta-feira de forma inconclusiva.

Trata-se da segunda “greve cirúrgica”, como tem sido denominada pelos profissionais, depois de uma primeira paralisação idêntica em cinco grandes hospitais, que durou de 22 de novembro a 31 de dezembro e levou ao cancelamento ou adiamento de quase oito mil cirurgias.

A paralisação que arrancou na quinta-feira foi convocada pela ASPE e pelo Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor) e prevê abranger sete centros hospitalares: São João e Centro Hospitalar do Porto, Centro de Entre Douro e Vouga, Gaia/Espinho, Tondela/Viseu, Braga e Garcia de Orta.

À semelhança da última paralisação, a greve será apoiada por um fundo recolhido numa plataforma ‘online” e que angariou mais de 420 mil euros.

Enfermeiros denunciam pressões dos médicos na Feira

Entretanto, a ASPE denunciou a existência de "uma grande tensão" no Hospital São Sebastião, em Santa Maria da Feira devido à indisponibilidade dos médicos para ajustarem os tempos de cirurgia às equipas de enfermagem disponíveis.

Segundo fonte sindical, "há uma grande tensão no hospital, porque os médicos organizam os seus períodos cirúrgicos semanalmente e um deles, por exemplo, marcou três cirurgias para uma manhã, sabendo que só tem uma equipa de enfermeiros disponível e que o conjunto das três operações ultrapassa o tempo de disponibilidade da sala cirúrgica", começa por referir a fonte sindical.

Como o médico não passa nenhuma operação para a tarde, porque pensa que isto funciona ‘à la carte' e, em vez de adaptar os horários ao interesse do doente, prefere organizá-los em função da sua própria conveniência, cria-se uma pressão enorme sobre os enfermeiros e a tensão vai continuar a aumentar", acrescentou.

 

A mesma fonte argumenta que "os médicos sempre foram intransigentes" nestas matérias e que, devido à necessidade que sentem de "defender a sua posição", "lidam mal com o constrangimento que têm em mãos neste momento" - que é a greve em curso até final de fevereiro.

Realça, contudo, que as opções cirúrgicas são da exclusiva responsabilidade dos médicos, que "têm de ajustar o seu calendário cirúrgico às equipas e meios disponíveis" e assumir "as devidas consequências quando não o fazem".

Ainda assim, a sindicalista nota que, em casos mais urgentes, as equipas médicas podem solicitar um reforço de enfermeiros, para o que as diferentes estruturas sindicais representadas no hospital da Feira "sempre estiveram recetivas".

Mas seja no Hospital da Feira ou nos outros, os riscos de represálias são constantes, com os médicos a ameaçarem mudar para outra área os enfermeiros que têm dez ou 20 anos de uma determinada especialidade", diz essa fonte.

 

A sua conclusão é, por isso, que "esta greve não é apenas um grito de revolta - é também o enfrentar de um medo diário, para ver se alguma coisa muda".

Contactada pela Lusa, a administração do Centro Hospitalar do Entre Douro e Vouga, que gere o hospital da Feira e também os de São João da Madeira e Oliveira de Azeméis, disse apenas que "estão a ser assegurados e cumpridos serviços mínimos, e que sempre que necessário há negociação e diálogo com os piquetes de greve".

/ JGF