A saída de efetivos nas Forças Armadas está a provocar “sobrecargas de esforço” aos militares que ficam, um problema comum aos ramos, que mostraram esta sexta-feira cautela quanto à eficácia do plano do Governo para a profissionalização.

“Estamos a atingir níveis de exiguidade nas missões das Forças Armadas” que levam as pessoas a sentir “um alerta” de que “a qualquer momento” a situação “pode bater no fundo”, advertiu o tenente-general Martins Pereira, Adjunto do Estado-Maior-General das Forças Armadas para o Planeamento e Coordenação.

António Martins Pereira falava num debate moderado pela professora universitária Helena Carreiras, especialista em sociologia militar, que coordenou um estudo sobre o recrutamento e retenção dos militares em regime de contrato e de voluntariado das Forças Armadas.

O nível político tem de olhar para isto e fazer um esforço nesse sentido”, declarou, referindo que a falta de recursos humanos verifica-se quer no EMGFA quer na base de recrutamento e seleção para o cumprimento das missões, incluindo missões internacionais.

Pelo Exército, o comandante de Pessoal, general Fonseca e Sousa, referiu igualmente uma “sobrecarga ao nível dos serviços e de atividade". O vice-almirante Neves Coelho, superintendente do Pessoal da Marinha, sublinhou que o ramo tem “quadros de efetivos abaixo das necessidades” o que leva a empenhamentos sucessivos.

Saem de um navio e vão para outro, isto é devastador”, disse, defendendo que no ramo o problema não é o recrutamento – cuja taxa esteve nos 99% em 2018 – mas sim a retenção nas fileiras.

Para o vice-almirante, a “única maneira” de resolver o problema no ramo é o governo autorizar o recrutamento de mais pessoal.

A Força Aérea, disse o major-general Eurico Craveiro, diretor do pessoal, depara-se com saídas de militares altamente qualificados que encontram no mercado de trabalho civil condições de carreira e de remuneração “duas, três ou quatro vezes superior” às que o ramo pode oferecer.

Por esta razão, o diretor de pessoal da Força Aérea disse que não se revê nas conclusões do estudo do Ministério da Defesa e coordenado por Helena Carreiras que aponta a dificuldade de transição para a vida civil como um fator de afastamento dos jovens da vida militar.

O que nós precisamos é de ser concorrenciais com o mercado”, disse.

O vice-almirante Neves Coelho defendeu que, ainda que os salários não tenham sido apontados no estudo como o “fator crítico” da motivação dos militares, a realidade é que qualquer medida para reforçar a atratividade e a retenção nas Forças Armadas vai exigir “pôr dinheiro, seja nas remunerações, seja no resto”.

Quanto à eficácia do plano do Ministério da Defesa para a profissionalização das Forças Armadas, que aposta na convergência da formação obtida com o Sistema Nacional de Qualificações e em alterações à estrutura das carreiras e medidas de conciliação da vida profissional e familiar, num horizonte de cinco anos, o comandante de pessoal do Exército disse que “tem esperança” no modelo mas advertiu: “prognósticos só no fim do jogo”.

Pela Marinha, o vice-almirante Neves Coelho considerou que “daqui por uns anos” se verá o resultado, considerando essencial medidas para acabar com a “sobrecarga” a que estão sujeitos os militares.

Sobre este ponto, o tenente-general Martins Pereira acrescentou que o modelo atual, de quadros permanentes, regime de contrato e de voluntariado pode não estar esgotado mas exige “pensar noutras situações”.

A melhoria das condições de habitabilidade das unidades militares, uma das medidas propostas no plano do Governo para a profissionalização, já está a ser aplicada no Exército desde 2017, garantiu o comandante de pessoal, adiantando que o ramo está a “apostar no recrutamento local” para reduzir o número de deslocados.

O número autorizado de efetivos militares situa-se entre os 30 e os 32 mil mas atualmente o total dos ramos é de cerca de 26 mil militares, segundo afirmou hoje o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, na abertura de um seminário em que foi apresentado o plano do ministério para a profissionalização, baseado em três eixos, recrutar, reter e reinserir.