O Instituto Português do Sangue e Transplantação escondeu ou ignorou, durante seis anos, um caso de uma doente que recebeu uma transfusão que continha sangue suspeito de contaminação de hepatite C.

Em 2012, Isabel foi submetida a uma operação à vesícula. A intervenção correu mal, devido a um erro médico, e obrigou a uma transfusão de sangue.

Seis anos depois, a doente foi contactada pelo Hospital da Luz, onde foi operada, e revelaram-lhe que o lote suspeito pertencia a um dador portador do vírus da hepatite C, detectado um ano depois da transfusão. 

À doente foi pedido silêncio, com encontros discretos, gravados sem o conhecimento do hospital em questão e do próprio Instituto Português do Sangue e Transplantação.

"Ao fim destes anos todos da minha vida normal, fui contactada pelo Professor Doutor José Roquette, através do telemóvel pessoal, a perguntar se podia ir ter com ele à [Hospital] Luz", conta Isabel.

Isabel foi e quando lá chegou ligou ao Professor Doutor José Roquette para a ir buscar à entrada, tal como tinha sido combinado.

Na conversa, que foi gravada sem conhecimento do médico, José Roquette revelou a presença do vírus: "Uma das transfusões de que foi alvo... os dadores são acompanhados com regularidade, antes e depois, e o dador que deu sangue para ela, na altura, foi detetado positivo para vírus da Hepatite C."

A doente ficou em choque, pensou mesmo que iria "morrer" e questionou tudo, com especial foco no timing da comunicação:

"Porque é que não ligaram em 2013? Em 2014, talvez? E ligaram-me só em 2018. O próprio Professor Roquette não sabe, se sabe disse-me que não sabia, que também tinha feito essa pergunta e que não lhe tinham respondido."

O diretor clínico do Hospital da Luz questionou o Instituto Português do Sangue e Transplantação, após saber do caso, e explicou isso na conversa com a doente: "Questionei-lhes porque é que esta colheita tinha sido feita no dia 6 de abril de 2012 e tinha-se confirmado a positividade para vírus da hepatite C e porque é que só mandaram a convocatória um ano depois. Eles disseram que só conseguiram a confirmação um ano depois e assumem toda a responsabilidade."

Na mesma conversa, o médico assumiu "responsabilidade indireta": "A responsabilidade não é nossa, mas seja como for temos responsabilidade indireta por termos feito essa transfusão. Isto é da responsabilidade integral do Instituto Português do Sangue, se ela tiver hepatite C."

José Roquette confidenciou na conversa com a doente, que há mais casos destes: "Já tivemos um em que não era hepatite C, era HIV. Felizmente não desenvolveu a doença, mas foi uma coisa complicada. Ele portou-se muito bem, foi um senhor inglês muito pragmático que disse: 'Não tem importância, tenho 87 anos também'."

Do Hospital da Luz, Isabel foi para o Instituto Português do Sangue e Transplantação e gravou novamente a conversa. O encontro foi com Ana Paula Sousa, diretora técnica do Centro de Sangue de Lisboa, que explicou a Isabel o que aconteceu.

"As unidades de sangue são recolhidas a dadores que são avaliados, é realizada triagem clínica, é feita análise e só quando está tudo negativo é que as unidades são transfundidas. Foi o que aconteceu contigo e estava tudo bem. Acontece que um ano depois, neste intervalo todo, o mesmo dador aparece e com uma análise positiva. Tudo foi deitado fora, tudo foi eliminado, mas em termos de procedimento de segurança e como medida de precaução nós vamos sempre estudar outra vez a última dádiva e quem recebeu."

Após a explicação, o marido de Isabel confrontou a técnica com a demora no contacto e Ana Paula Sousa não conseguiu dar uma resposta.

Nessas conversas são feitos desabafos da responsável técnica do Centro de Sangue de Lisboa, que admite falhas no sistema de controlo do sangue, mostrando mesmo preocupação pelo facto de o sangue contaminado, pertencer na maioria dos casos, a dadores regulares que supostamente deveriam estar mais controlados.

"Nós não somos um país rico, mas se nós tivéssemos uma seroteca, ou seja, ter a possibilidade de para cada dádiva que o dador dá, congelar uma amostra. Mas pronto, nós também temos que saber aceitar as limitações que o país tem", disse Ana Paula Sousa.

A diretora técnica mostrou a Isabela a preocupação com a possibilidade do caso se tornar conhecido.

A comunicação social, hoje em dia, na minha perspectiva, e vou partilhá-la convosco, não me levem a mal, nós não temos verdadeiros jornalistas, nós temos pessoas que querem causar impacto e querem vender jornais e portanto não fazem uma investigação como ela deve ser feita, o que interessa é criar alarme público e pouco mais. E portanto não investigam. Por exemplo, o que está aqui a acontecer, se isto vai para a comunicação social, o que as pessoas são capazes de logo dizer... e não é nada disso. Isto é simplesmente um procedimento de segurança, independentemente de já ter decorrido o tempo todo que decorreu."

Isabel fez análises nesse dia, às 10 horas, para averiguar se estava bem consigo e às 17 horas foi contactada a informar que estava tudo bem. Isabel desconfiou.

Não achei que tivessem mentido, um falso negativo, mas achei muita rapidez e toca a despachar. Foi o que eu senti, senti que era: 'Esta já está'."

 

Isabel sentiu que não era caso único e que este tipo de erro e procedimento não preocupava a instituição. Por isso, decidiu falar.

A TVI pediu uma entrevista ao Ministro da Saúde, que foi questionado por escrito pela jornalista Ana Leal sobre se tinha conhecimento de tudo isto e se mantinha a confiança no presidente do Instituto do Sangue e diretora técnica.

Adalberto Campos Fernandes optou por não responder a nenhuma pergunta, remetendo o assunto para o Instituto Português do Sangue e Transplantação.

DIREITO DE RESPOSTA do Instituto Português do Sangue e da Transplantação

Nos termos da lei em vigor, designadamente o artigo 24.º da Lei de Imprensa (Lei n.º 2/99, de 13/01 na redação atual), o IPST, IP exerce o direito de resposta relativamente a uma reportagem exibida ontem, dia 23/05/2018.

Assim, importa referir os seguintes factos:

1. Não houve em Portugal qualquer caso confirmado de transfusão de sangue contaminado com vírus da hepatite C.

2. Em abril de 2017, foi detetado um dador infetado pelo vírus da hepatite C. Esse sangue, naturalmente, foi eliminado. O sangue desse dador colhido em datas anteriores a essa dádiva não estava contaminado.

3. Posteriormente esse dador foi recorrentemente chamado para que fosse possível repetir a análise, comparecendo somente em fevereiro de 2018.

4. Como procedimento de segurança de elevado nível, foi avaliado o histórico de dádivas desse dador e respetivas transfusões e encontrou-se a última transfusão, que remonta a 2012.

5. A doente que recebeu o sangue dessa dádiva de 2012 foi chamada para ser analisado o seu estado de saúde, num procedimento de segurança a que chamamos “look back”.

6. Os resultados analíticos da recetora da transfusão foram negativos, confirmando-se que não houve transmissão de infeção.

Em nome da transparência, o IPST, IP desencadeou, de imediato, um processo de inquérito interno e solicitou à Inspeção Geral das Atividades em Saúde a realização de uma ação inspetiva.

O IPST, IP reitera que não há, em Portugal, sangue para transfusão contaminado com hepatite C e que não houve em 2012 nenhum caso de infeção por transfusão.

O Conselho Diretivo do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, IP

Lisboa, 24/05/2018