A Sociedade Portuguesa de Ecografia Médica (SPEM) manifestou-se esta terça-feira contra as chamadas “ecografias emocionais”, feitas fora do âmbito médico, considerando que expõem grávidas e fetos a tempos excessivos de exposição a ultrassons, o que pode ter efeitos nocivos.

Em declarações à agência Lusa, Francisco Gaivão, presidente da SPEM, disse que a exposição excessiva a ultrassons pode ter efeitos biológicos nocivos (aquecimento e cavitação).

Apesar de até à data não terem sido detetados efeitos nocivos nas ecografias, o instituto norte-americano de ultrassons (American Institute of Ultrasound in Medicine – AIUM) tem alertado para que não se façam exames demasiado demorados”, afirmou.

“Pode promover o aquecimento exagerado dos tecidos e a cavitação, que é como a formação de bolhas de gás dentro dos tecidos”, explicou o médico radiologista, sublinhado que a ecografia morfológica demora cerca de 30 minutos e que estas ecografias emocionais são muito mais longas, podendo, segundo uma consulta a uma das clínicas, chegar a 60 minutos.

O responsável contou ainda que há clínicas que “chegam a alugar aparelhos para que as grávidas levem para casa para verem o bebé”.

Francisco Gaivão explicou que estas ecografias não são realizadas por médicos, usam tecnologia 4D, em que não se vê o feto por dentro, mas apenas por fora, “que é o que a família quer ver”.

“Estes exames vieram de Espanha, onde estão já muito difundidos”, disse o responsável, alertando também para exploração do ponto de vista emocional que estas entidades acabam por fazer da grávida e de toda a família: “Fazem uma ecografia em que a família assiste e até gravam um CD, o que não é propriamente barato”.

Numa consulta a diversos ‘sites’ de espaços que anunciam este tipo de ecografias, a Lusa constatou que os preços podem chegar aos 380 euros no caso dos ‘packs’ disponibilizados pelas clínicas e que incluem diversas ecografias, vídeo e visualização de ecografias em direto.

A Lusa contactou uma das entidades que anunciam estas ecografias, que explicou que estes exames “não são para diagnóstico” e que são feitos “por técnicos especializados em ecografias emocionais”. Disse ainda que as ecografias podem ser feitas pelos seus técnicos em “diversas farmácias espalhadas pelo país”.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da SPEM reconhece que “a legislação é muito vaga nesta matéria, designadamente sobre quem faz estes exames e quem os pode fazer”.

No comunicado divulgado esta terça-feira, a SPEM, constituída por médicos de várias especialidades reconhecidas pela Ordem dos Médicos (OM) e que utilizam a ecografia diagnóstica nas respetivas áreas especificas de trabalho, mostra-se favorável à “certificação médica” a emitir pela OM aos seus membros que a requeiram, “depois das provas curriculares ou outras consideradas pertinentes”, sendo a certificação renovável “em datas e termos a definir”.

Diz-se igualmente favorável a uma “certificação técnica dos equipamentos utilizados no eco-diagnóstico, usados em medicina humana, devendo a certificação ser da responsabilidade da Entidade Reguladora da Saúde ou por sua delegação idónea”.

Na semana passada, na sequência do caso do bebé que nasceu com malformações graves não detetadas pelo médico que fez as ecografias durante a gravidez da mãe, a OM anunciou que iria criar uma competência específica na área da ecografia de acompanhamento da gravidez, apesar de considerar que as normas existentes em Portugal “asseguram a qualidade” desses atos médicos.

Centros de saúde devem ter capacidade para realizar ecografias obstétricas

O coordenador nacional para a reforma dos cuidados de saúde primários defendeu que os centros de saúde devem ter capacidade para realizar ecografias obstétricas, mas só feitas por profissionais qualificados.

Para Henrique Botelho, as grávidas devem ser acompanhadas nos cuidados de saúde primários, os quais deverão ter capacidade técnica para a realização de ecografias.

Os hospitais têm capacidade para responder ao pré-parto, à gravidez, embora muito particularmente acho que numa gravidez normal a realização das ecografias deve ser feita fora do hospital”, disse à agência Lusa Henrique Botelho, que falava à agência Lusa a propósito do caso do bebé que nasceu com malformações graves em Setúbal.

Para o coordenador nacional, a gravidez deve ser acompanhada nos cuidados de proximidade, mas para isso os cuidados primários devem ter “capacidade técnica resolutiva para o que mandam as boas práticas, e neste caso que se realizem as ecografias que estão protocoladas por técnicos qualificados para o fazer, o que manifestamente não aconteceu” neste caso. 

/ SS