A Ordem dos Advogados deslocou-se ao tribunal de pequena instância de Lisboa para prestar apoio jurídico aos cidadãos detidos na quinta-feira no bairro da Bela Flor, depois de participarem na manifestação em frente à Assembleia da República.

«Estamos a tratar de fazer uma escala especial [de apoio aos detidos] para este recorde de detenções em Portugal», disse aos jornalistas o presidente do conselho distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, Vasco Marques Correia.

Segundo a PSP, foram identificados e notificados para comparecer hoje em tribunal 226 manifestantes que, depois da concentração de quinta-feira em frente ao parlamento, a propósito da greve geral, decidiram seguir em desfile espontâneo em direção ao viaduto Duarte Pacheco, em Lisboa.

A Ordem dos Advogados manteve contactos durante a noite com o comando metropolitano de Lisboa e decidiu prestar apoio aos cidadãos que necessitem.

«Não é normal que sejam detidas mais de 200 pessoas numa noite» no contexto de uma manifestação pacífica, afirmou Vasco Marques Correia.

Em comunicado divulgado de madrugada, a PSP afirma que um grupo de manifestantes abandonou as imediações da Assembleia da República cerca das 18:30 em direção ao Viaduto Duarte Pacheco, onde terão procedido a um «corte da via de trânsito» no acesso à ponte 25 de abril.

Porém, esta versão não é confirmada pelos manifestantes, que dizem ter sido conduzidos pela polícia até àquele local, onde foram isolados.

Cristina, uma agente de viagens de 57 anos, que integrava aquele grupo, disse à Lusa que a polícia foi «sempre à frente e a abrir caminho».

«Pensava que íamos até às Amoreiras e depois para o Marquês de Pombal. E depois conduziram-nos para a ponte 25 de abril. Ninguém fez corte de trânsito, algumas pessoas saltaram para uma faixa de rodagem e gritaram para os carros apitarem», relatou.

«Debaixo do viaduto, fomos cercados pela polícia de intervenção com cães», contou.

Seguidamente, os manifestantes foram conduzidos ao bairro da Bela Flor, onde terão sido revistados e identificados.

«Ficámos num quadrado, numa zona pouco visível», acrescentou Cristina, referindo que foi intimidatório, mas que não houve agressões da parte da polícia, até porque as pessoas «eram extremamente pacíficas».

Segundo a manifestante, a polícia mandou retirar as pessoas que se encontravam num terraço a ver o que se passava e afastou a imprensa, deixando o grupo isolado e sem testemunhas.

Tal como outros manifestantes, Cristina só conseguiu ir para casa depois da 01:30.

No grupo, havia pessoas de todas as idades, embora maioritariamente jovens.

Entre os ativistas identificados e notificados para comparecer hoje em tribunal, encontrava-se também Miriam Zaloar, que se identifica como jornalista precária.

«Houve pessoal que saiu de frente da Assembleia da República em manifestação espontânea e festiva até, sempre acompanhado pela polícia», contou.

De acordo com o presidente do conselho distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, Vasco Marques Correia, o que está a acontecer é um caso inédito em Portugal, pelo menos nos últimos anos.
Redação / CP