Os enfermeiros de cinco blocos operatórios de hospitais públicos iniciaram esta quinta-feira uma greve de mais de um mês às cirurgias programadas, que pode adiar ou cancelar milhares de operações. Pelas 11:30 já se contabilizavam algumas centenas de cancelamentos, com estes profissionais de saúde a ameaçarem prolongar a paralisação "até quando o Governo entender".

Os efeitos já começaram a notar, como constataram os repórteres da TVI no Porto, em Coimbra e em Lisboa. Na Invicta, algumas dezenas de enfermeiros concentraram-se à porta do hospital de S. João. "Os critérios mínimos estão a ser cumpridos, blocos de urgências e as cirurgias do foro oncológico estão a funcionar", explicou uma sindicalista. Quanto a números de adesão, só mais tarde serão revelados.

Em Coimbra, os enfermeiros dizem que estão em greve não só por causa dos salários. Um exemplo das consequências da paralisação: das 65 intervenções cirúrgicas de oftalmologia previstas, 60 foram desmarcadas. O protesto tem algo de inédito na cidade dos estudantes, uma vez que estes profissionais de saúde vão aproveitar para doar sangue.

Em Lisboa e Setúbal, "todas as cirurgias programadas foram canceladas", segundo reportaram sindicalistas à TVI. Os enfermeiros vão prolongar esta greve "até quando o Governo entender", dizem. "Não estamos contra a população, estamos contra o ministério da Saúde"

Esta greve cirúrgica, decretada pela Associação Sindical Portuguesa de Enfermeiros (ASPE) e pelo Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor), irá abranger o Centro Hospitalar Universitário de S. João, o Centro Hospitalar Universitário do Porto, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e o Centro Hospitalar de Setúbal.

A paralisação visa “parar toda a cirurgia programada, mantendo, naturalmente, assegurados os cuidados mínimos decretados pelo tribunal”, referem os sindicatos em comunicado.

Os enfermeiros reivindicam uma carreira transversal a todos os tipos de contratos e uma remuneração adequada às suas funções, tendo em conta “a penosidade inerente ao exercício da profissão”.

A ideia da paralisação partiu inicialmente de um movimento de enfermeiros que recolheu já mais de 360 mil euros num fundo destinado a compensar os profissionais que ficarão sem salário.

"Basta!"

Alguns enfermeiros concentrados hoje de manhã à porta do Santa Maria têm cravos brancos nas mãos e envergam um crachá na lapela onde se pode ler “É tempo de dizer basta – greve cirúrgica”. Têm colegas a fazer "muito mais horas do que aquelas que estão contratualizadas, o que leva a uma prestação e cuidados mais deficientes”, disse a enfermeira do Hospital de Santa Maria, que pertence ao Centro Hospitalar Lisboa-Norte, salientando que a “situação tem que ser resolvida urgentemente”.

Sobre a adesão à greve, a sindicalista Sónia Viegas disse à Lusa disse que está perto dos 100% como se estimava e está a afetar essencialmente os blocos operatórios.

"Médicos ao lado dos enfermeiros e dos utentes"

A Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, também se juntou hoje à concentração por considerar “justo” o que os profissionais estão a pedir.

A Ordem não está só ao lado dos enfermeiros, mas também das pessoas, porque hoje os enfermeiros não têm condições para tratar das pessoas com dignidade”, disse à Lusa Ana Rita Cavaco.

 

Não podemos falar em dignidade quando há um enfermeiro para 40 pessoas ou quando há um enfermeiro sozinho a trabalhar num serviço a noite inteira. Isso não dá dignidade a ninguém e pior do que isso oferece um risco de segurança muito grande”, disse.

O que diz o Governo

Na terça-feira, os dois sindicatos que convocaram a paralisação decidiram manter o protesto, por falta de acordo com o Governo sobre a estrutura da carreira.

Numa nota à imprensa enviada antes do final da reunião negocial de terça-feira à tarde, o Ministério da Saúde invocou que na proposta apresentada aos sindicatos se destaca “a consolidação do enfermeiro especialista e o reconhecimento da importância da gestão operacional de equipas pelo enfermeiro coordenador".

A tutela assume que a proposta de revisão da carreira especial de enfermagem "constitui a aproximação possível às reivindicações apresentadas" pelos sindicatos, "num contexto de sustentabilidade das contas públicas e equidade social".

O secretário de Estado Adjunto e da Saúde disse na quarta-feira que o governo fez “um esforço muito significativo” para ir ao encontro das reivindicações dos enfermeiros e entende que a manutenção da greve vai atrasar o processo negocial e um possível acordo.

Em declarações à agência Lusa, Francisco Ramos, disse que a proposta apresentada aos sindicatos dos enfermeiros contempla as “principais reivindicações”, nomeadamente ao "consagrar a figura do enfermeiro especialista" e ao reconhecer as funções de gestão dos enfermeiros.

O Governo fez um esforço muito significativo de ir ao encontro das principais reivindicações dos sindicatos de enfermagem, nomeadamente no que respeita à estrutura proposta de carreira e às regras de desenvolvimento profissional nela contempladas”, afirmou Francisco Ramos.

Os sindicatos continuam a reclamar que o Governo não consagrou a categoria de enfermeiro especialista, frisando que estabelecer a figura de especialista não é o mesmo que a consagrar na carreira.

O secretário de Estado diz que o Ministério da Saúde esperava, da parte dos sindicatos, “um sinal de que estão de facto interessados em chegar a um compromisso e a continuar sentados à mesa das negociações”:

“O Ministério da Saúde considera que a manutenção da greve é uma disrupção dessa vontade”, disse Francisco Ramos.