Um chefe da guarda prisional passava droga a reclusos por um postigo do bar da cadeia de Paços de Ferreira, tendo recebido cinco mil euros por entregar um quilograma de heroína, denunciou esta sexta-feira em julgamento um dos arguidos.

A revelação foi feita na terceira sessão de julgamento que decorre no pavilhão anexo ao Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira (EPPF), com 20 arguidos, incluindo um chefe prisional, acusados de pertencerem a uma rede criminosa que traficava estupefacientes e outros bens proibidos no interior daquela cadeia do distrito do Porto.

Miguel Veiga, conhecido como ‘terrorista’, confessou os factos da acusação do Ministério Público (MP) e contou ao tribunal que, entre 2017 e 2018, trabalhou no bar principal do EP de Paços de Ferreira, depois de o arguido Mário Barros – para o MP, um dos três alegados cabecilhas da rede -, que trabalhava no bar, ter sido “expulso” do local, devido a um “problema” com outro recluso.

É neste contexto, que, disse, Miguel Veiga foi abordado pelo então chefe da guarda prisional José Coelho no sentido de “facilitar as entregas de droga” a alguns dos reclusos pelo postigo do bar, uma vez que com a saída de Mário Barros do bar “não tinha outro meio” para fazer chegar o estupefaciente aos reclusos/arguidos.

Miguel Veiga, que pediu para prestar declarações na ausência dos arguidos, por receio de represálias, relatou ao coletivo de juízes, presidido por Maria Judite Fonseca, que, por “várias vezes”, o chefe José Coelho fez chegar droga aos arguidos Mário Barros e José Rúben: o primeiro ia buscar diretamente heroína, o segundo enviava outros reclusos para fazerem a recolha de haxixe.

Numa das situações, descreveu este arguido, José Coelho, chefe do corpo de guardas prisionais no EPPF entre 2012 e 2019, deu-lhe “uma gratificação” de mil euros, pois “tinha ganho cinco mil euros” por entregar um quilograma de heroína ao arguido Mário Barros.

Uma ocasião, o chefe pousou na balança e vi um quilograma de pó acastanhado, embrulhado em celofane e perguntei: tanta droga? O chefe respondeu que foi tudo de uma vez para ser mais fácil. Nessa altura, mencionou que tinha ganho cinco mil euros com aquilo e deu-me mil euros de gratificação”, assumiu.

Miguel Vieira disse que presenciou outras entregas de heroína ao arguido Mário Barros, assumindo que, em algumas ocasiões, o chefe José Coelho deixava o produto estupefaciente no bar e ele próprio fazia as entregas pelo postigo aos arguidos.

O mesmo procedimento acontecia em relação ao arguido José Ruben, mas neste caso tratava-se de haxixe.

Miguel Vieira relatou ao tribunal que, em pelo menos três vezes, “foram entregues 10 placas de haxixe”, que equivalem a cerca de um quilograma.

Questionado sobre se sabia como é que o produto estupefaciente chegava ao chefe José Coelho, o arguido afirmou que a heroína era entregue pela mulher do arguido Mário Barros e o haxixe pela companheira do arguido José Ruben, sempre em encontros fora do EP de Paços de Ferreira.

Este arguido disse ainda que o chefe José Coelho, entretanto aposentado e em prisão preventiva ao abrigo deste processo, fazia chegar a estes dois arguidos telemóveis, perfumes ou bebidas alcoólicas, como whisky.

Miguel Vieira assumiu que “não queria passar a vida toda na prisão” e que começou a tomar consciência da “dimensão” deste esquema criminoso e decidiu pedir ajuda, recorrendo a um inspetor da Polícia Judiciária, a quem denunciou o que se estava a passar.

O julgamento prossegue na sexta-feira, 26 de fevereiro.

/ AG