Numa altura em que os casos de Covid-19 estão a aumentar no país e que todos os cuidados são poucos, dentro e fora de casa, como nos devemos proteger a nós e a quem nos rodeia no nosso seio familiar? 

A primeira recomendação que surge por parte das autoridades de saúde, é que é importante que as pessoas restrinjam a sua "bolha" de contactos àquelas com as quais é imprescindível estarem em contexto laboral ou familiar. 

Segundo a Direção-Geral de Saúde, quanto menor for “o número de pessoas com as quais contactam de forma regular, menor a probabilidade de serem infetadas com SARS-CoV-2”, sendo que em todo o momento devem ser tomadas as medidas de proteção individuais recomendadas.

Mas, quando se está em família, como se cumprem essas regras? Quais são as que não podemos descurar de forma alguma? Como as colocamos em prática sem colocar em causa a nossa saúde mental?

De acordo com a DGS, há oito medidas que devem ser praticadas em permanência, para proteção individual e coletiva, quer na comunidade, quer no nosso seio familiar: higiene das mãos; etiqueta respiratória; distanciamento físico; utilização de máscara; limpeza e desinfeção de superfícies; redução de contactos; ventilação dos espaços; permanência em casa e evitar locais públicos ou contacto com outras pessoas, em caso de manifestação de sintomas compatíveis com COVID-19.

Em conversa com a TVI24, Gustavo Tato Borges, especialista em saúde pública, afirma que a principal regra a ter presente é que a máscara é para usar sempre, uma vez que "os encontros familiares são problemáticos apenas a partir do momento em que as pessoas ficam juntas umas em cima das outras sem utilizarem máscara". 

"O que temos assistido, é que as pessoas iam visitar os avós, os tios, os pais e entravam em casa e tiravam a máscara. E ficam em convívio, em conversa, mesmo sem estarem a comer e a beber, sem qualquer tipo de equipamento de proteção individual. E portanto, aquilo que é preciso é que as pessoas quando vão visitar casas de familiares com quem não residem têm de se comportar como se estivessem no trabalho ou num restaurante. Ou seja, devem estar de máscara, evitar contactos próximos (de abraços e de beijos) e de contacto físico, e manter um mínimo de distância possível".

Para o especialista, as famílias devem organizar a casa "como se fosse um restaurante", mantendo a distância sempre que possível e as máscaras só sendo retiradas para a refeição. Mas, na prática, como se faz isso?

"Se vamos ter almoço ou jantar, as pessoas devem comportar-se ou devem organizar a sua casa como se fosse um restaurante e colocar mesas separadas por agregados familiares e as pessoas ficarem sentadas por casas para quando tiramos a máscara e ficamos desprotegidos, pois então aí estarmos mais afastados uns dos outros e o risco ser menor. De preferência comer no exterior, mas não podendo ser, estarmos afastados".

No entanto, apesar das recomendações, nem sempre é fácil manter esse distanciamento em família. Ana Teresa Ribeiro, economista, é natural de Coimbra, mas mora em Aveiro com o marido. Quinzenalmente, ruma à terra natal para rever a família, mas manter a distância é complicado, como contou em entrevista à TVI24.

"Nós somos os dois de Coimbra. Vamos lá de 15 em 15 dias e ficamos uma noite em cada casa. Ou seja, há separação de agregados. Na casa da minha mãe só estamos com ela. Na casa dos meus sogros estamos com os meus sogros, os meus cunhados e a minha sobrinha. Mas não se tem juntado outro tipo de família e em casa, não mantemos a distância e não andamos de máscara. Para nós, eles fazem parte da nossa rede familiar", conta Ana Teresa, explicando que não tem estado com amigos para não correr riscos adicionais no momento de estar com a família.

"O meu marido está em teletrabalho, só eu é que entro e saio, por isso, é mais fácil controlar. Usamos máscara, desinfetamos as mãos, não nos juntamos com outras pessoas e estamos com a nossa família de duas em duas semanas".

Já na casa de Joana Reis, professora de dança, as coisas são feitas no extremo oposto das regras e a família tem vivido "muito para o trabalho e muito no contexto de bolha residencial”.

"A minha mãe não nos quer ver por perto. Não temos feito reuniões familiares, fizemos apenas uma, em maio, no aniversário do meu filho, ao ar livre, com muito distanciamento. Os meus pais pertencem a grupos de risco e não estão predispostos a ajuntamentos. Mas tenho um filho que uma vez por semana passa lá em casa. Ele ainda não usa máscara, mas os meus pais andam de máscara quando ele está lá em casa. Só estamos juntos por telefone e sinto que (juntarmo-nos) causaria mais stress do que perigo", explica à TVI24.

Preparação começa antes de chegar à mesa

Para que tudo corra pelo melhor - e de preferência sem contágios - tudo tem de ser preparado com cuidado, antes e depois da refeição. Assim, quando recebemos os convidados, "as pessoas não devem ficar no hall a cumprimentar-se e a conversar um bocadinho".

"Ao chegar ao local, as pessoas devem entrar imediatamente e dirigir-se para a sala onde vão estar e de preferência pousar as suas coisas na cadeira onde vão ficar sentados, que também deve estar pré-definida antes dos convidados chegarem, de maneira a que as minhas coisas fiquem no lugar onde vou jantar, que deve ser separado dos outros agregados familiares", explica Gustavo Tato Borges

E não se preocupe com os sapatos, diz o especialista. Caso não seja confortável, quer para si, quer para os convidados, que os sapatos fiquem à porta, não se preocupe. Depois dos convidados saírem, "o mais importante, é fazer a limpeza". Deve sim, preocupar-se com o local onde os convidados vão colocar a máscara no momento da refeição. 

"O anfitrião deveria arranjar uma forma - envelope, folha de papel, saco, prato - para que o convidado coloque a sua máscara sem estar em contacto com a toalha de mesa. Colocar onde a pessoa vai ficar de maneira a que a pessoa mal queira sair da mesa tenha a máscara ali. Temos de nos lembrar que só devemos retirar a máscara junto do nosso agregado familiar, com quem nós moramos. Se estivermos em casa de pessoas que não fazem parte da nossa bolha residencial, pois então são pessoas estranhas de quem nos precisamos de proteger e que precisamos de proteger".

Por isso mesmo, para proteger "quem reside e quem está no convívio", aquilo que "antigamente era uma falta de educação, que era não ajudar a colocar/levantar a mesa, agora é uma obrigatoriedade".

"Nós podemos pôr a nossa louça nas várias mesas do encontro e depois no final retirar a louça e colocá-la a lavar. O que é importante, é que antes de pegar nos pratos que vamos colocar nas mesas para as pessoas, lavem as mãos com desinfetante ou sabão, para colocarmos em cima da mesa. Quando vamos levantar a mesa, convém também que quem não é da casa não faça a arrumação dos pratos. Será a pessoa da casa que levanta os pratos e coloca na máquina e depois os arruma. E depois de mexer nos talheres, nos copos e nos pratos dos convidados, lava as mãos", conclui.

Que impactos têm as regras na saúde mental?

Regras, regras e ainda mais regras. De repente, até o simples ato de fazer uma refeição com a família implica que tudo seja pensado (ainda mais) ao pormenor e que cheguemos a colocar em causa se queremos mesmo fazer esse ajuntamento.

Não só pelas regras que têm de ser cumpridas, pelos riscos de contágio que se correm, mas também pelo stress emocional que isso provoca, principalmente em idosos e crianças.

Ter de explicar, recorrentemente, a avós e netos que não podem abraçar-se, beijar-se ou até tocar-se e que devem manter a distância de segurança, pode ter um forte impacto na sua saúde mental. Para que isso não aconteça é importante, como explica a psicóloga Filipa Jardim Silva, “explicar as regras independentemente das idades”.

“Vale a pena explicar e dotar as pessoas de compreensão e integração de informação e, muitas vezes, precisamos de ir de encontro aos valores daquela pessoa, ao que é que para ela é mais importante, para encontrarmos argumentos que vão encaixar na sua estrutura mental. Mas esta compreensão é fundamental. Só a compreensão e a integração de informação é que leva à responsabilização individual. O medo e o pânico nunca vão levar à responsabilização individual”, afirma.

Esta posição vai ao encontro ao que defende Gustavo Tato Borges, de que é necessário explicar o porquê de não abraçarmos os nossos avós.

“Temos de lhes explicar que o fazemos para os proteger a eles. Porque vimos de um local mais concorrido, com mais contactos de risco e, se calhar, quando vamos a casa dos nossos avós, que à partida estão mais resguardados, o nosso pensamento é que temos de protegê-los, resguardá-los, e é isso que devemos dizer-lhes”, explica.

Para a psicóloga, o facto de agora ser tudo tão controlado “tem um impacto psicológico real e que tem de ser considerado”, até porque se trata de um afastamento necessário e imposto que nos obriga a ir contra o que é a natureza do ser humano.

“Esta questão dos isolamento, do distanciamento, do contacto, do toque, quando existe interação, tudo isso, de alguma forma coloca os elementos da família em sentido de alerta e de tensão. É quase como se todos estivessem perante um perigo iminente. E essas restrições, essa ausência de toque, e portanto esta alteração de hábitos e expressão de afeto mostra isso a todo o momento. Que há aqui um perigo que está iminente e isso depois acarreta um perigo de tensão superior”, afirma, lembrando que “o afastamento físico anda, muitas vezes, de mãos dadas com o afastamento emocional”.

Para que isso não aconteça, o mais importante é tentar manter a normalidade no meio de todas as regras que têm de ser cumpridas, uma vez que há “um conjunto de rituais que se podem manter” ou ser substituídos por semelhantes. E, quando não é possível estar presente fisicamente, os ecrãs podem ser uma boa solução.

“O foco tem de ser manter a normalidade. A nossa experiência e a nossa vivência pessoal do dia a dia é muito afetada pelo foco do nosso pensamento. (…) Temos de usar a nossa criatividade para percebermos como é que podemos manter uma proximidade emocional perante um distanciamento físico”, acrescenta a psicóloga, acrescentando: "Às vezes, é bom percebermos que a doença mental mata. A doença mental cria sérios danos e é um risco. E é esse equilíbrio que precisamos de manter".

Andreia Miranda