O presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) advertiu esta terça-feira para “uma janela de oportunidade”, com a acalmia da pandemia de covid-19 a partir de abril, que está a terminar com o impacto de uma eventual segunda vaga.

Tivemos uma janela de oportunidade que está a terminar e vai terminar essencialmente com o impacto que vamos ter porventura com uma segunda vaga ou mesmo emergência de outras infeções respiratórias sazonais porque aí certamente vamos ter mais desafios e estes desafios só se respondem com planeamento”, afirmou Alexandre Lourenço, na cerimónia de apresentação do Movimento Saúde em Dia, uma iniciativa em parceria com a Ordem dos Médicos (OM).

No seu entender, não se pode “correr o risco de ter um sistema que é gerido ao dia e as respostas são identificadas ao dia".

"A população tem que ser responsabilizada também para saber onde é que deve dirigir-se em cada momento, se deve utilizar a Linha Saúde 24, se deve ir ao seu médico de família ou a um ponto centralizado rede para infeções respiratórias, defendeu.

Na cerimónia foram apresentados os resultados da análise "Qual o impacto da pandemia Covid-19 na prestação de cuidados de saúde em Portugal?", que indicam que nos primeiros sete meses do ano foram realizadas menos cerca de sete milhões de consultas presenciais médicas e de enfermagem nos centros de Saúde em comparação com o período homólogo.

Os dados indicam ainda que o número de utentes com pelo menos uma consulta médica presencial ou não presencial decresceu 7%, fixando-se em cerca de 5,5 milhões, menos cerca de 438 mil do que no período homólogo.

Relativamente aos meios de diagnóstico que ficaram por realizar, os dados apontam para menos cerca de 16,8 milhões, menos 31% face a igual período de 2019.

Para o bastonário da OM, Miguel Guimarães, estes “são números preocupantes”: “É verdade que existe, por um lado, alguma compensação naquilo que são os contactos telefónicos, que não podemos chamar de facto consultas, mas a verdade é que uma grande parte dos doentes que nós tratamos nos hospitais sejam de doenças oncológicas, ou outras são doentes que nos são referenciados pelos cuidados de saúde primários”.

Contudo, os médicos de família estão neste empenhados na luta contra a covid, a ser chamados para os lares, a fazer “uma série de coisas a mais do que aquilo que é a sua atividade normal”, disse.

Portanto, “têm dificuldade em retomar a atividade normal e, enquanto não resolvermos isso, existe um conjunto muito grande de doentes que nós não sabemos quem são, que não têm rosto”, que são “um motivo de grande preocupação”, sublinhou Miguel Guimarães.

Para ultrapassar esta situação, o movimento esta terça-feira anunciado irá fazer “algumas propostas de soluções para tentar recuperar aquilo que é recuperável”, encurtando os tempos de espera para consultas e cirurgias dos já estão à espera e tentar ir buscar ao sistema pessoas os que estão fora dele e “têm de entrar.”

Alexandre Lourenço acrescentou que existe uma necessidade de planear e articular todas as instituições de saúde.

“É evidente que cada instituição de saúde está a fazer o seu trabalho a nível individual”, a preparar a retoma da atividade, a preparar-se para o plano de contingência para o inverno, “mas as instituições sozinhas pouco podem fazer em termos de um problema que requer uma resposta nacional”.

No seu entender, esta resposta terá de ser de “elevada articulação” entre hospitais, centros de saúde, cuidados continuados, o setor social, autarquias e forças de segurança.

“O que temos vindo a apelar já há algum tempo é que haja uma abordagem articulada entre todos os atores”, disse, defendendo que é preciso exigir essa liderança ao Ministério da Saúde para congregar todos os esforços e atores para fazer esse exercício de planeamento.

A nossa expectativa é que o período de inverno venha a decorrer da melhor forma, mas é exigível que estejamos preparados para o que possa suceder de pior”, sublinhou.

Para Alexandre Lourenço, “é importante” que estes dados sejam conhecidos a nível nacional, mas também a nível de cada instituição para se perceber como se pode “apoiar cada instituição a desempenhar o seu papel de forma adequada na recuperação da atividade, suprindo as necessidades dos portugueses”, mas também na preparação da “época de inverno que pode ter um grande impacto sobre a capacidade do sistema de saúde”.

Portugal contabiliza pelo menos 1.846 mortos associados à covid-19 em 60.895 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

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