São 30 doentes com idades a partir dos 67 anos e alguns com quase 90 anos, todos eles infetados com covid-19. Vieram de outras unidades de saúde, com a indicação de que já não precisam de internamento hospitalar, mas têm de continuar em vigilância ou de cumprir isolamento, e foram instalados na Base Naval do Alfeite.

"Deveriam ser doentes autónomos, ou seja, que se levantam, que fazem a sua higiene, que são auto-suficientes. Mas, na verdade, não é isso que acontece. Muitos deles têm de receber soro ou precisam de bastantes cuidados médicos porque são pessoas já idosas e com outras doenças", conta à TVI um profissional de saúde, que pediu anonimato, do centro de acolhimento para doentes covid instalado na Base Naval do Alfeite, em Almada. "Mas nós somos muito poucos. É impossível dar-lhes os cuidados que precisam." A falta de recursos humanos "é muito preocupante": por exemplo, à noite, entre as 21.00 e as 8.00, não há médicos nem enfermeiros no local. "Estão apenas auxiliares, e poucos. O médico está de chamada."

Instalado numa zona de camaratas que estavam desativadas na Base do Alfeite, este centro de acolhimento é uma das Estruturas de Apoio de Retaguarda (EAR) criadas em novembro passado pelo Governo - por despacho conjunto dos ministros da Administração Interna, da Saúde e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social - para receber "pessoas infectadas com SARS-CoV-2, sem necessidade de internamento hospitalar, e a utentes de ERPI [estruturas residenciais para pessoas idosas] que careçam de apoio específico fora das respectivas instalações". 

De acordos com os dados divulgados no passado dia 20 de janeiro, há  20 estruturas espalhadas por 16 distritos com capacidade para acolher até 2.069 utentes. Nessa altura existiam 144 doentes em 11 centros. A TVI contactou o Ministério da Saúde para atualizar estes números mas não obteve resposta.

Além destas 20 estruturas operacionais, existem outras oito em fase de instalação, completando assim a rede nos 18 distritos de Portugal continental. No total, a rede contará com uma capacidade máxima que ultrapassa as 2.300 camas. 

Alguns dos espaços resultam de protocolos com a Marinha (Alfeite), as Forças Armadas (Belém) ou a Força Aérea (Beja), outros foram cedidos pela Igreja (por exemplo, seminários) mas também há centros a funcionar em antigos hospitais, residências, pousadas da juventude e até hotéis.

Na semana passada, numa tentativa de aliviar a pressão nos hospitais, o Governo decidiu alargar as valências das EAR "a pessoas internadas em unidades hospitalares com situação clínica não relacionada com a SARS-CoV-2", que se conclua que não têm "necessidade de internamento em unidade hospitalar ou em outra unidade de saúde" mas que precisam de acompanhamento.

Muitas das vezes trata-se de "casos sociais", explica este profissional de saúde contactado pela TVI. "São pessoas que não têm condições em casa para cumprir o isolamento ou que vivem sozinhas e não têm autonomia". Mas são, cada vez mais, pessoas que precisam efetivamente de cuidados médicos. "Com o agravar da situação da pandemia, temos recebido cada vez mais doentes", diz. A 16 de janeiro eram apenas quatro os pacientes no Alfeite, neste momento são já 30, vindos de diversas unidades de saúde de Lisboa e não só. O centro tem 60 camas e é previsível que em breve estejam todas ocupadas.

De acordo com o despacho do Governo, compete às Comissões Distritais de Protecção Civil indicar as infra-estruturas e "suportar, sempre que necessário, as despesas relativas a alimentação, eletricidade, aquecimento, gás, água, telecomunicações, lavandaria, limpeza e higienização das instalações". Os espaços têm de obedecer aos critérios definidos pela Direcção-Geral da Saúde e pelo Instituto da Segurança Social.

O Instituto da Segurança Social assegura a coordenação técnica, canalizando auxiliares de acção directa e auxiliares de serviços gerais. E cada Administração Regional de Saúde, em articulação com os hospitais, disponibiliza o pessoal médico e de enfermagem.

No caso do Alfeite, os médicos e enfermeiros são destacados pelos Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Almada/Seixal para trabalharem nos dias de semana, e dos ACES da Arábida e do Arco Ribeirinho para os fins-de-semana. Mas só os enfermeiros que manifestam vontade de ir para ali são deslocados para o Alfeite. "Estão a pedir voluntários mas não aparece ninguém", relata. "Eu sei que vivemos uma situação complicada, que os outros sítios também estão com dificuldades. Mas existe uma grande desorganização e para nós é muito angustiante não conseguir dar uma resposta de qualidade a estas pessoas."

A TVI contactou o Ministério da Saúde e a Administração Regional de Saúde e Vale do Tejo, que confirmam que a assistência só existe durante 12 horas, mas que consideram que esta é suficiente para prestar cuidados de qualidade a estes doentes.

"Nesta estrutura, estão disponíveis 12h diárias de cuidados de enfermagem, com resposta médica presencial, também diariamente. A dotação dos profissionais de saúde para esta resposta está organizada em função das características e necessidades dos utentes, por forma a garantir cuidados seguros e de qualidade", diz a resposta enviada à TVI.

Maria João Caetano