O filho de uma grávida em morte cerebral mantida em suporte orgânico no Hospital de São João, no Porto, nasceu hoje às 04:23, com 1,7 quilos, e está internado no Serviço de Neonatologia, disse à TVI fonte daquela unidade hospitalar.

O Salvador nasceu às 04:32 de hoje e está internado no Serviço de Neonatologia do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ)”, disse fonte do hospital à TVI.

A mãe da criança está internada no CHUSJ “em morte cerebral, mantida em suporte orgânico até se atingirem as condições de maturidade fetal necessárias para a realização do parto”, informou na quarta-feira aquele hospital.

O parto estava previsto para sexta-feira, mas teve que ser antecipado por complicações médicas que ocorreram na noite de quarta-feira. A equipa responsável pelo parte revelou que o bebé "nasceu com dificuldades respiratórias significativas e por isso teve que ser ligada a respiração mecânica".

[O bebé] está com uma evolução favorável dentro do contexto de bebé prematuro. O pai do Salvador acompanhou e participou em todo o processo, ao longo dos 56 dias, em que a mãe de Salvador esteve internada (...) e está com o filho desde o parto", indicou em conferência de imprensa o Hospital.

Os responsáveis garantiram que foi "necessária uma equipa multidisciplinar dadas circunstâncias em que estava a mãe". Sobre as condições em que está a criança, a equipa médica assegura que a criança tem condições semelhantes às de um qualquer bebé prematuro, apesar de se tratar "de um caso especial".

Bebé é como "qualquer prematuro" 

O bebé nascido hoje com “31 semanas e seis dias” apresenta a saúde de “qualquer outro prematuro com igual tempo de gestação”, informou o hospital de São João.

Em conferência de imprensa, Hercília Guimarães, chefe do serviço de Neonatologia do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ) explicou que o Salvador foi, naquela unidade, “o primeiro” bebé nascido de uma mãe em morte cerebral, ali mantida durante “56 dias” em suporte orgânico de vida, até que, durante a madrugada de hoje, “deteriorações respiratórias” da mãe levaram a antecipar a cesariana prevista para sexta-feira.

Nasceu bem, com necessidade de apoio de suporte ventilatório, o que é normal para o tempo de gestação. Neste momento deve estar a ser extubado [retirada de suporte respiratório], porque estava a melhorar da parte ventilatória. Não existem, neste momento, quaisquer indicações de problemas relacionados com o falecimento da mãe”, observou a especialista.

Marina Moucho, obstetra, explicou que a cesariana prevista para sexta-feira foi antecipada devido a “deteriorações respiratórias e dificuldade em ventilar a mãe, que tiveram como consequência algumas alterações no bebé”.

O bebé não estava em sofrimento, mas havia algumas alterações justificadas pela dificuldade na ventilação materna. Foi decidido terminar a gravidez. Foi considerado que seria o melhor para ele”, acrescentou.

Já a neonatologista Hercília Guimarães frisou que “não há riscos” para o Salvador “por ter nascido às 31 semanas e seis dias”.

Temos algumas reservas devido ao problema que a mãe teve quando acabou por falecer. Será que terá havido algum problema [com o bebé] que podemos relacionar com isso? Mas, neste momento, referir isto é especular. Não temos nenhum dado que nos possa dizer que exista algum problema e que seja motivado por essa relação”, explicou a médica.

Quanto ao facto de o parto estar agendado para sexta-feira, a médica esclareceu que a previsão se devia ao cumprimento das 32 semanas de gravidez, consideradas a “barreira entre o prematuro e o moderadamente prematuro”.

Catarina, de 26 anos, teve um forte ataque de asma e foi declarada clinicamente morta em dezembro. A cesariana estava prevista para sexta-feira, mas houve a necessidade de realizar uma cirurgia de emergência, que ocorreu então esta quinta-feira. O bebé está, aparentemente, bem, mas mais detalhes serão dados em conferência de imprensa para as 12:30, no hospital de São João. 

A mãe entrou no hospital de São João em morte cerebral e a família procederá agora às cerimónias fúnebres. 

Este é o segundo bebé a nascer em Portugal com uma mãe em morte cerebral. O primeiro, Lourenço, nasceu em 2016 no Hospital de S. José, em Lisboa, depois de a respetiva comissão de ética ter concordado manter a mãe ligada às máquinas até às 32 semanas de gravidez.

Naquele caso, o feto sobreviveu 15 semanas na barriga da mãe que estava em morte cerebral depois de ter sofrido uma hemorragia intracerebral, tendo sido o período mais longo alguma vez registado em Portugal.

Veja também:

Ana Peixoto / JGF