Há um ano que o Ministério Público (MP) entrou no Centro Hospitalar Conde Ferreira, no Porto para investigar uma realidade escondida. A Procuradoria-Geral da República confirma a abertura de um inquérito ainda sem arguidos constituídos.

A investigação partiu de uma queixa e quando entrou no Conde de Ferreira, o MP descobriu doentes acamados com úlceras de pressão profundas e doentes psiquiátricos colocados em isolamento apenas com um colchão no chão. Em causa podem estar crimes de maus-tratos e eventuais práticas de negligência hospitalar.

Na reportagem “A vida no Conde de Ferreira”, a TVI mostra documentos, fotografias e filmagens que revelam a dramática realidade escondida por detrás dos muros do Hospital Conde de Ferreira.

Trabalhadores, ex-trabalhadores e ainda familiares testemunharam à TVI a forma como os doentes são tratados na instituição, nascida como hospital psiquiátrico por vontade do Conde de Ferreira, que, no século XIX, deixou uma pequena fortuna para a sua construção.

Hoje, o Hospital abriu portas a outro tipo de doentes, além dos que padecem de doença mental. Além de pessoas com doença mental, recebe doentes em precariedade social e alguns acamados que vêm de outros hospitais. São pessoas que a vida os colocou numa situação de fragilidade acabando por ficar acamados. O tempo fez o resto deixando-os com úlceras de pressão de grau IV no corpo, feridas enormes difíceis de sarar.

Segundo testemunha à TVI um ex-trabalhador do Conde de Ferreira, há pessoas que têm úlceras de pressão onde cabe um punho fechado. Tudo acontece porque, diz-nos, não é feito o que é devido.

É, digamos, de x em x horas irmos ao doente, virar o doente, fazer o chamado posicionamento. Nós não fazíamos. O que é que isso vai originar? Originava úlceras de pressão. E depois, claro, via-se o que se via.” 

A mesma testemunha revela que há falta de materiais para tratar as úlceras de pressão e, de acordo com os trabalhadores, as escaras são situações que aparecem depois dos doentes internados no Hospital.

Para especialistas como Isabel Beltrão, médica com mais de 30 anos de experiência em cirurgia geral no Serviço Nacional de Saúde, estas não são situações inevitáveis. A médica, que pertence também à direção da Associação Nacional de Cuidados Continuados, considera estranho que úlceras de tamanha gravidade aconteçam em ambiente hospitalar.

A gravidade da realidade no Conde de Ferreira é também chocante para a psiquiatra Ana Matos Pires. A médica, com perto de 25 anos de experiência na área da psiquiatria, diz que o quarto de isolamento onde são colocados os doentes no Conde de Ferreira lhe faz lembrar a “torradeira do Tarrafal”.

O quarto de isolamento da enfermaria Júlio de Matos para onde são enviados os doentes psiquiátricos do Conde de Ferreira é uma sala em pedra com um colchão no chão. Na reportagem da TVI é possível ver doentes colocados nesse quarto de isolamento, por vezes, em precárias condições sanitárias.

Mas neste hospital é possível também ver doentes psiquiátricos abandonados a si próprios e instalações degradadas. As imagens são reveladoras de um hospital onde parece que regredimos no tempo.

Os responsáveis do hospital assumem que têm pessoas com úlceras graves mas asseguram que são apenas três. Consideram ainda que o quarto de isolamento em psiquiatria tem as condições mínimas e que o tratamento que é dado aos doentes é de qualidade.

Jorge Dias, presidente do conselho executivo do Conde de Ferreira, é perentório. 

Nós tratamos muito bem dos nossos doentes. O nosso doente é o foco principal da nossa atividade!”