A pandemia de covid-19 “exacerbou as desigualdades existentes entre homens e mulheres em quase todas as áreas do quotidiano”, regredindo “conquistas duramente alcançadas nos últimos anos”, esta é a conclusão do “Relatório de 2021 sobre a igualdade de género na União Europeia” publicado, esta sexta-feira, pela Comissão Europeia.

Tendo em vista o Dia Internacional da Mulher, que se celebra na próxima segunda-feira, a igualdade de género esteve em debate no programa O Dilema, na TVI24.

Na discussão estiveram presentes os comentadores da TVI Maria João Marques e Miguel Guedes, bem como, as convidadas Helena Matos, colunista e escritora, e Mónica Quintela, advogada e deputada do PSD.

Helena Matos considera que ainda existe uma discriminação de género laboral e salarial, em Portugal, mas entende que um sistema de quotas não é o caminho ideal para se atingir uma igualdade linear a todas as vertentes sociais.

Não vejo que as quotas sejam um meio adequado para se atingir essa igualdade. Sei que não é uma opinião consensual. (...) Quando vimos a questão da afirmação das mulheres aquilo que tivemos, sobretudo, foi, da parte das mulheres, uma grande entrada no mundo do ensino e vemos que entraram muito no mercado de trabalho em épocas de crescimento ou de emigração. (...) ”, refere Helena Matos.

 

Maria João Marques explica que, no passado, já foi contra a implementação do sistema de quotas de género e por que mudou de opinião.

A comentadora da TVI critica o facto de as quotas serem humilhantes, mas afirma que poderia restabelecer alguma igualdade perante o passado misógino da humanidade.

Há muitos anos, também não era simpatizante das quotas. Aliás, as quotas são em si mesmas uma ideia humilhante. Obrigarem alguém a olhar para as mulheres para escolherem mulheres. Irrita qualquer pessoa. Mudei de ideias por que às tantas percebi que as quotas já existiam, mas eram de homens e eram de 5%. Portanto, não vale a pena sermos esquisitas, porque os homens eram escolhidos pela quota de homens há milénios”, esclarece Maria João Marques.

 

Miguel Guedes acredita que um sistema de quotas de género seria benéfico para erradicar a descriminação intrínseca à sociedade. 

O comentador da TVI alerta que "a pobreza é, sobretudo, feminina" e reitera que o feminismo não centrar-se apenas nos cargos de chefia das empresas.

A questão das quotas é, fundamentalmente, um acelerador. Isto vem sempre no mesmo embrulho que diz: -Como se pode questionar a meritocracia? Como é que mulheres menos capazes podem agora ficar com cargos que supostamente seriam de homens mais habilitados para o efeito? Mas, por trás, tem sempre a mesma questão: -Por que é que há tão poucas mulheres em cargos de administração e como chegámos a esse ponto? Chegámos, porque há de facto um sistema discriminatório que é secular que leva a que assim seja. Portanto, as quotas, que em questões de gosto, não apoio, mas, em questões de discriminação, tenho que apoiar. Acho que são aceleradoras e benéficas. (...) Feminismo que se esgote na questão da ideologia de género é um feminismo que não responde à transformação social necessária tendo em conta que grande parte das mulheres continua a trabalhar com salários baixos na base da pirâmide. Não basta olhar para o topo da pirâmide e exigir que haja mulheres CEO’s, porque vamos continuar a ter na base da pirâmide muitas mulheres, muitas delas com salários indignos, Há dados que indicam que a pobreza é, sobretudo, feminina”, realça Miguel Guedes.

 

Mónica Quintela, advogada e deputada do PSD, considera que a proposta avançada pela Comissão Europeia, que pretende obrigar as grandes empresas da União Europeia a divulgarem as médias salariais com o objetivo de corrigir desigualdades, será benéfica e um método para minimizar a desigualdade de género.

Em Portugal, as diferenças salariais entre os homens e as mulheres andam na média dos 14,4%, acima da média europeia. No nosso Código do Trabalho e na Constituição está consagrado: para trabalho igual, salário igual. Mas, sabemos que há uma série de alcavalas que acabam por alavancar as remunerações e os salários masculinos. Tudo o que tem a ver com a transparência é absolutamente fundamental e concordo que sejam divulgadas todas as remunerações que as pessoas auferem”, evidencia Mónica Quintela.

 

Nuno Mandeiro