Uma imigrante brasileira de 44 anos, que passou dois meses retida no Centro de Instalação Temporária do aeroporto de Lisboa e é testemunha privilegiada de alegados crimes violentos praticados por inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), nomeadamente contra o ucraniano Ihor Homeniuk, está sob ameaça de elementos daquele órgão de polícia criminal que  para que se mantenha em silêncio. Surgiram duas vezes em casa da vítima, para que não testemunhe em tribunal, mas a imigrante já  ripostou com uma queixa-crime a que a TVI teve acesso. 

A mulher deu uma entrevista em novembro passado, ao Diário de Notícias, sob anonimato, mas rapidamente foi identificada pelo SEF como sendo a fonte da reportagem e logo no dia em que foi publicada a notícia recebeu uma visita em casa, na zona de Leiria, de dois inspetores que a ameaçaram - aconselhando-a a "não arranjar problemas com as pessoas de Lisboa". Isto porque na notícia relatou várias agressões e abusos de autoridade a que assistiu por parte do SEF - nomeadamente sobre Ihor Homeniuk. 

Depois, já no mês passado, a mulher prontificou-se a testemunhar no  julgamento do homicídio de Ihor. O advogado assistente da família do cidadão ucraniano requereu ao tribunal que chamasse a mulher para depor - mas uma hora e meia depois deste pedido, feito no Campus de Justiça, em Lisboa, já a imigrante brasileira estava a receber outra visita do SEF em casa, na zona de Leiria. Desta vez um inspetor sozinho, com novas ameaças e até perguntas sobre o marido da imigrante, que, ainda em situação irregular no país, está nas mãos do SEF para obter autorização de residência ou ser repatriada para o Brasil. 

Entretanto as defesas dos inspetores do SEF que estão a ser julgados por homicídio opuseram-se a que esta testemunha seja chamada - e o coletivo de juízes deu-lhes razão.

A mulher, entretanto, apresentou uma queixa-crime na Polícia Judiciária de Coimbra, que está assim a investigar novos crimes no SEF, como ameaça e coação.

Henrique Machado