Uma imigrante brasileira que esteve dois meses no centro de instalação temporária do SEF, em Lisboa, revela que assistiu ao que aconteceu na madrugada de 11 para 12 de março do ano passado a Ihor Homeniuck.

A testemunha revela, numa entrevista exclusiva à TVI, que o homem foi alvo de várias agressões e que naquele espaço era prática comum os inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras agredirem os passageiros ali retidos.

A cidadã brasileira diz que assistiu a tudo e que percebeu que o cidadão ucraniano não conseguia comunicar.

“Ele estava calmo, consciente, mas querendo fazer a ligação. Nervoso, porque não o deixavam e ele não sabia falar a língua e fazia gestos e as pessoas faziam que não entendiam os gestos.”

Do que assistiu, não tem dúvidas: o cidadão ucraniano foi agredido, por inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

“E eu via que ele tentou pegar o telefone para fazer a ligação, não era hora de fazer ligação. Vi que levaram para lá, fecharam a porta, ele saiu atrás, o vigilante pegou nele e levou de novo. Aí eles ligaram para os federais, foram lá, conversaram com ele, naquela conversinha ele apanhou a madrugada inteira, a noite inteira. Ele foi agredido. Ele foi realmente agredido. Como muitos foram.”

Esta testemunha, que prefere manter o anonimato por medo de represálias, diz que o cidadão ucraniano foi agredido por mais inspetores do SEF, além dos três que estão acusados do homicídio.

“Há mais inspetores que eu penso, porque na madrugada ele apanhou muito. Ele também tomou uma surra lá, amarraram ele. Foram outros? Sim. Eu vi eles a entrar para a sala, toda a gente viu.”

A testemunha diz que os três inspetores que estão a ser julgados eram temidos pelos imigrantes.

“Agride, agride e aí solta a pessoa lá junto com a gente e a pessoa conta tudo. Vem marcada, arrebentada mesmo. Teve um que ficou tão arrebentado que ele ficou lá na cama dele e depois não se levantou no outro dia. Não sei o que foi, que eles chamaram esses inspetores de novo. Foram lá, pegaram ele, levaram para sala, ele o amigo também cabo-verdiano, saíram os dois de cadeiras de rodas. Eu morria de medo deles. Toda a gente lá tinha pavor deles.”

 Nos dois meses em que esteve retida, diz que percebeu que as agressões eram uma prática comum naquelas instalações.

“Agridem. Na mesma sala que o Ihor morreu. Eu chamo-lhe sala do terror. Spray de pimenta. Pancada. Eles põem uma luva preta assim decerto para não deixar impressão digital. Vai conversar com a pessoa, leva para o banheiro e bate.”

Em fevereiro, já com o julgamento a decorrer, o advogado da família de Ihor quis arrolar esta mulher como testemunha. Na imprensa foi noticiado, horas depois a mulher recebeu a visita de um inspetor do SEF em casa.

O agente justificou a presença como sendo uma entrevista sobre o processo de casamento que esta tem a decorrer nos serviços. Pelo meio da conversa, surgiu o caso de Ihor.

“Ele disse-me: ‘posso dar-te um conselho?’ Pode. ‘Não se meta com essa gente. Eu não sou a favor do que aconteceu lá, nem todo o SEF é mau, mas dou-te um conselho: não fale’”.

Uma conversa que a deixou nervosa e apreensiva.

“Foi um aviso para me calar. ‘Você é imigrante, é estrangeira, tudo o que for mexer, vai precisar do SEF para tudo’.”

Na Polícia Judiciária de Coimbra já deu entrada uma queixa por alegada coação.

O testemunho desta mulher não foi aceite pelo tribunal e não vai ser ouvida no julgamento.

Henrique Machado