As duas testemunhas do arguido Bruno Gomes, ex-vereador da Câmara de Pedrógão Grande, acusado no processo de reconstrução de casas ardidas no incêndio no concelho, em 2017, afirmaram no Tribunal de Leiria que aquele tinha apenas funções técnicas.

Na segunda sessão da fase de instrução, o engenheiro António Silva, testemunha indicada por Bruno Gomes, afirmou que trabalha há cerca de 13 anos com o ex-vereador.

“O Bruno tinha funções técnicas ligadas às obras e ao PDM [Plano Diretor Municipal], mas nunca perdeu essas funções, mesmo quando foi vereador”, referiu António Silva, revelando que aquele lugar não foi ocupado quando entrou para o executivo.

O incêndio que deflagrou em 17 de junho de 2017, em Escalos Fundeiros, concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, e que alastrou depois a concelhos vizinhos, provocou 66 mortos e 253 feridos, sete deles com gravidade, tendo destruído cerca de 500 casas, 261 das quais eram habitações permanentes, e 50 empresas.

No processo que investigou a reconstrução das casas ardidas, o Ministério Público (MP) de Coimbra deduziu acusação contra 28 arguidos.

A acusação refere-se à prática de 20 crimes de burla, 20 crimes de prevaricação de titular de cargo político, 20 crimes de falsificação de documentos, um crime de falsidade informática e um crime de falsas declarações".

"Foi requerida a perda de vantagens provenientes dos crimes no montante global de 715.987,62 euros", refere ainda o MP.

Na sessão de hoje, António Silva explicou que quando se começaram a fazer os levantamentos das casas que tinham ficado danificadas ou destruídas no incêndio de junho de 2017 não se sabia que habitações seriam contempladas com o apoio do Estado.

“Falava-se que eram habitações permanentes, mas nem se sabia bem o que isso queria dizer”, declarou.

António Silva adiantou ainda que Bruno Gomes andou no terreno a identificar as casas afetadas, juntamente com outros técnicos. “Houve sessões de esclarecimento, mas o que se falava era que todas as habitações danificadas eram para reparar”, adiantou.

Confirmando que o ex-vereador integrava os quadros do Gabinete Operacional de Recuperação e Reconstrução (GORR), a testemunha desconhece quem o indicou para fazer parte da comissão técnica do fundo Revita.

“Não tomava as decisões, apenas tinha funções técnicas”, sublinhou.

António Silva garantiu ainda que Bruno Gomes “não tirou qualquer vantagem” do processo, assinalando que aquele “trabalha exageradamente muito”.

“Foi fundamental e há poucas pessoas como ele. Ele não ganhou nada com nada, nem politicamente. Nem concorreu a nenhuma autarquia, apesar de duas listas o terem convidado”, observou.

Outra testemunha ouvida hoje no Tribunal de Leiria foi José Graça, ex-vereador da Câmara de Pedrógão Grande, que chegou a assumir a vice-presidência. Esta testemunha também confirmou as funções “técnicas” que Bruno Gomes tinha, mesmo enquanto vereador.

“Ele fazia a parte de vereação e era técnico, porque a câmara nunca nomeou ninguém para o substituir”, disse José Graça, explicando que as funções após o incêndio foi de “receber os requerimentos das pessoas e verificar”.

À pergunta sobre “quem se pronunciava sobre os fundos”, a testemunha respondeu que “a última assinatura era do presidente.”

José Graça é também uma das quatro testemunhas indicadas por Valdemar Alves, presidente da Câmara de Pedrógão Grande, igualmente arguido neste processo.

“[Era o] senhor presidente que liderava o processo das casas”, referiu.

Na quinta-feira, serão ouvidas as restantes três testemunhas indicadas por Valdemar Alves que, através do seu advogado, informou que não iria prestar declarações na fase de instrução.

/ AM