Apesar dos incêndios da última semana, os bombeiros destacam que a situação poderia ser mais grave se não se tivesse apostado nos grupos de intervenção primária, enquanto especialistas consideram que este esforço é ainda insuficiente, escreve a Lusa.

Para Duarte Caldeira, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, apesar «destes 400 incêndios por dia ao longo de dias sucessivos com uma concentração a Norte e Centro», a situação está ainda muito distante da verificada nos Verões de 2003 e 2005.

«Nesta altura, em 2003 já tínhamos 17 populações evacuadas, cerca de 300 habitações ardidas, muitas indústrias destruídas pelo fogo, nove mortos entre a população afectada e tínhamos efectivamente uma situação de descontrolo completo», disse, considerando que esta evolução positiva se deve ao reforço da capacidade de primeira intervenção, que permite atacar e dominar o fogo na sua fase inicial.

Duarte Caldeira salientou que, apesar de o número de fogos por dia ser idêntico ao de 2003 e de o dispositivo estar a ser sujeito a um elevado esforço devido à simultaneidade de ocorrências, este ano «são muito poucos aqueles que têm durado mais de 72 horas, que é um prazo considerado fundamental para o domínio do incêndio».

«É precisamente nos incêndios que este ano escaparam até agora ao controlo, fundamentalmente o de Vilarinho das Furnas e o de São Pedro do Sul, que é preciso analisar a primeira intervenção, porque tudo indica que foi o que falhou», defendeu.

Por seu lado, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN) reconhece a existência de «mais meios humanos e materiais» no combate a incêndios desde 2003, mas salienta que continuam a existir «problemas de coordenação» e lamenta que a acção no terreno se mantenha «dependente de uma esmagadora maioria de voluntários».

A liga espera que «as lições deste Verão sejam devidamente aprendidas, de modo a introduzir as melhorias» num sistema que evoluiu positivamente, mas que «está ainda muito longe dos padrões que encontramos noutros países».

Para Francisco Castro Rego, especialista em incêndios do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, as cerca de 400 ocorrências diárias são valores «muito maus» e «muito próximos» dos que foram 2003/05, mas não são valores completamente inesperados.

«Em três ou quatro dias com este número de ocorrências o dispositivo consegue reagir, mas quando elas se prolongam no tempo o dispositivo quebra. Tapa-se de um lado, levanta-se do outro e é sempre muito complicado», observou.

Castro Rego salientou ainda que «todos os anos há sempre regiões europeias que são sempre mais ou menos afectadas» por incêndios, pelo que faria sentido uma directiva da União Europeia que permitisse partilha de recursos entre os países, sobretudo ao nível dos grupos de análise mais especializados, «com preparação prévia para essa cooperação, evitando as barreiras da língua e da organização».
Redação / CP