A Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande considerou hoje que a acusação do Ministério Público contra doze arguidos no âmbito do inquérito àquele fogo de 2017 é uma resposta cabal ao interesse público.

"Entendemos ser a resposta cabal ao interesse público que a tragédia que lhe está subjacente exige e do interesse público na sua divulgação para memória futura", refere a associação liderada por Nádia Piazza em comunicado enviado à agência Lusa.

O Ministério Público do Departamento de Investigação e Ação Penal de Leiria deduziu acusação contra doze arguidos no âmbito do inquérito aos incêndios de junho de 2017 em Pedrógão Grande, que mataram 66 pessoas.

A acusação "é inédita na história da judicatura portuguesa, sendo por isso corajosa, mas não destemida, pois, assumindo com humildade a grande complexidade do processo, está calcada, contudo, numa robusta e diversificada produção de prova que a ampara", refere a associação.

"Ousou ver onde, antes, outros negaram. A total incompetência dos agentes de proteção civil, a incompetência dos responsáveis na gestão e fiscalização da manutenção das servidões administrativas das redes viárias nacionais e municipais e linhas elétricas", lê-se no documento.

Para a Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, o despacho do Ministério Público "é mais do que uma acusação: É memória futura numa sociedade conhecida por ter pouca memória e um documento pedagógico para responsáveis políticos, dirigentes e funcionários públicos, gestores da coisa pública e sociedade em geral".

Segundo as vítimas, da acusação também se pode concluir que o Ministério Público "recusou assacar responsabilidades políticas pela profunda mudança nos comandos distritais da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) em vésperas de época de incêndios e pela análise cuidada das suas competências profissionais".

"Não é uma vitória. Não há guerra nem vitórias possíveis neste cenário. Já perdemos todos. Vítimas, sobreviventes, acusados e sociedade", conclui o comunicado.

Responsáveis da proteção civil local e distrital e ainda dois quadros da EDP são acusados de 63 crimes de homicídio por negligência e 44 crimes de ofensa à integridade física por negligência na sequência do incêndio de Pedrógão Grande.

Segundo a acusação a que a agência Lusa teve acesso, o despacho assinado pela magistrada Ana Simões acusa o então Comandante Distrital de Operações de Socorro de Leiria, Sérgio Gomes, o segundo comandante distrital, Mário Cerol, e o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, de 63 crimes de homicídio por negligência e 44 crimes de ofensas à integridade física (14 dos quais graves).