As colónias de ratos têm vindo a aumentar nos municípios devastados pelos incêndios de 2017, como Arganil e Oliveira do Hospital, o que obrigou as autarquias a reforçar nas últimas semanas as medidas para combater esses roedores.

A multiplicação anómala dos ratos e ratazanas nos territórios atingidos pelos fogos é uma consequência da “morte ou fuga dos seus predadores naturais”, disse hoje o biólogo Jorge Paiva à agência Lusa.

“Muitas das cobras morreram”, adiantou, confirmando que estes répteis, mas também as aves de rapina e alguns pequenos mamíferos, como raposas e ginetas, “é que controlam as populações” de ratos do campo e outros.

O professor jubilado da Universidade de Coimbra explicou que “os ratos conseguiram sobreviver porque foram para as luras”, escavando mesmo os buracos para níveis mais profundos, enquanto os seus habituais predadores morreram ou fugiram à medida que as frentes de fogo avançavam.

O concelho de Arganil está a ser afetado por uma praga de ratos, que, no entanto, “não representa uma ameaça à saúde pública”, de acordo com a Câmara Municipal.

“Estão a ser tomadas medidas no sentido de responder de forma pronta e conveniente às situações reportadas, nomeadamente através do reforço do sistema de recolha de lixo e da desratização na rede de saneamento de águas residuais”, informou a Câmara, em comunicado.

Citando a Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, a autarquia presidida por Luís Paulo Costa afirmou que “a proliferação de ratos registada nas zonas afetadas pelos incêndios de outubro de 2017 não representa, contudo, uma situação alarmante” em termos de saúde pública.

Segundo a ARS, “não foram reportados casos de doença transmitida por roedores, nem houve até ao momento recurso aos serviços de saúde motivado por situações relacionadas com o aumento destes animais”.

A Câmara de Arganil, no distrito de Coimbra, “vai manter-se particularmente alerta para esta situação, de forma a garantir as condições de higiene e saúde pública no concelho, disponibilizando-se para apoiar os munícipes no esclarecimento de quaisquer dúvidas".

No mesmo distrito, os fogos de 15 e 16 de outubro de 2017 “devastaram 97 por cento da área florestal do concelho” de Oliveira do Hospital, “destruindo também a sua fauna e flora”.

A proliferação de ratos “tem origem no desequilíbrio dos ecossistemas”, disse hoje uma fonte do gabinete do presidente da Câmara, José Carlos Alexandrino.

Trata-se de “um problema transversal aos concelhos afetados pelos incêndios”, relacionado com o “desaparecimento dos predadores naturais, como cobras, raposas e aves de rapina”, entre outros.

Para combater a praga, aumentou “a vigilância e a monitorização” dos edifícios públicos, tendo sido igualmente redobrados os trabalhos de desratização, através das empresas especializadas que há vários anos asseguram esses serviços ao município.

Numa nota enviada à agência Lusa, o gabinete de José Carlos Alexandrino informa que foram reforçadas “as operações de manutenção e inspeção da rede de saneamento e águas pluviais”, com apoio de equipas no terreno.

Os incêndios que eclodiram em Pedrógão Grande e na Lousã, distritos de Leiria e Coimbra, nos dias 17 de junho e 15 de outubro de 2017, respetivamente, devastaram extensas áreas de floresta e mataram milhares de animais domésticos e selvagens.

Entre a população, o fogo de junho originou 66 mortos e mais de 250 feridos, enquanto no de outubro perderam a vida 50 pessoas e cerca de 70 ficaram feridas.