O professor associado de Saúde Internacional na Unidade de Saúde Pública Internacional e Bioestatística, Tiago Correia, esteve esta segunda-feira no programa “Segunda Vaga” para identificar e contextualizar possíveis causas e comportamentos associados ao crescimento de casos de infeção por covid-19 em Portugal.

Para o especialista, o Grande Prémio de Portugal da Fórmula 1 é um exemplo daquilo que não se deve fazer, especialmente por causa do fluxo de viagens da população para Portimão.

Parece-me que não devia acontecer. A questão não é o estado da situação em Portimão, mas sim o movimento de todo o país - de autocarro e de transportes privados - para o evento”, explica Tiago Correia, sublinhando que o evento faz com que responsáveis por outras atividades questionem o porquê de, por exemplo, o futebol não ter mais adeptos nas bancadas.

 

Para o professor, o aumento de casos e de mortes por causa da covid-19 em Portugal tem estado a alarmar as populações que, estando conscientes para a importância da etiqueta respiratória e do distanciamento físico, não conseguem perceber a origem deste crescimento exponencial.

Sobre isto, lamenta Tiago Correia, “ninguém tem uma resposta concreta”.

Sabemos que estamos a tomar todas as medidas para nos resguardarmos deste vírus, mas os testes positivos aumentam sem sabermos explicar o porquê”, afirma, dando o exemplo da República Checa como um país em que a pandemia estava “aparentemente vencida” e que viu um surgimento de casos que a colocam no topo da lista europeia de infeções por cem mil habitantes. “Quando assumimos que a situação já acabou e que o vírus não volta estamos errados”.

 

Se temos uma adesão às regras e noutro contexto não aderimos, não é eficaz. Se usamos máscara na rua e depois temos amigos em casa a jantar, não é coerente”.
 

Por outro lado, explica Correia, a Nova Zelândia pode ser vista como um país que está na linha da frente do bom exemplo na gestão da pandemia. O segredo, assume o especialista, está na aplicação de um sistema de níveis de alerta em função do risco epidemiológico regional. 

Este tipo de sistemas, afirma Tiago Correia, “ajuda as pessoas a entender o que estão a viver e permite ganhar fôlego para que, quando a situação estiver menos controlada, essas pessoas tenham a capacidade de gerir atitudes”.

 

Por isso, defende o professor, Portugal devia divulgar os mapas de risco epidemiológico para que as pessoas percebam as diferenças, porque o vírus não circula da mesma forma em todo o território”.

Para Tiago Correia, o mês de setembro foi uma altura crítica e pouco aproveitada para reforçar os sistemas e “tentar fazer as coisas de forma diferente”:  “Deixámos a situação arrastar-se ao ponto de ameaçarmos as pessoas a aderirem às medidas”.

O especialista reforça ainda que a batalha contra a pandemia passa por mudar mentalidades. Uma realidade que só acontecerá caso haja uma “comunicação eficaz e real da situação de onde vivem”.