Nas últimas semanas, tem saltado de mural em mural uma publicação que garante trazer ao mundo a notícia que todos desejam ouvir: não uma, mas dez medidas eficazes para prevenir a infeção pelo novo coronavírus. Dicas que parecem mais sérias do que nunca, uma vez que o autor do texto garante que foram extraídas de um estudo feito a partir das autopsias realizadas às primeiras vítimas mortais da doença. Ainda assim, o aviso é uma mão cheia de nada, como revela a Agence France Press.

Doctors are reporting they now understand the behavior of the COVID 19 virus due to autopsies that they have carried...

Publicado por Eddie IK Rivera em Terça-feira, 31 de março de 2020

Beber líquidos quentes neutraliza o vírus: falso

A publicação garante que beber café, sopa, chá ou tomar uma colher de água morna, a cada 20 minutos, é uma hipótese a considerar na hora de prevenir a doença, uma vez que os líquidos quentes mantêm a boca húmida e transportam qualquer vírus que tenha entrado no organismo para o estômago, local onde vai ser eliminado, antes de chegar aos pulmões. Esta dica, ou qualquer outra relacionada com água, é falsa, contudo já correu tanto mundo que a Organização Mundial da Saúde viu-se obrigada a desmenti-la.

Gargarejar com água e sal: falso

Esta mezinha caseira alivia a dor de garganta, uma vez que o sal tem propriedades anti-inflamatórias, porém para nada mais serve do que isso mesmo. Nem sal, nem limão, não vale a pena para perder tempo a gargarejar para evitar o contágio por Covid-19. A Organização Mundial da Saúde também já desmentiu esta dica: "Enquanto algumas mezinhas caseiras podem atenuar alguns sintomas da Covid-19, não há provas de que possam prevenir ou curar a doença".

O vírus fica na roupa, mas pode ser inativo com sabão e luz solar: parcialmente falso

A ciência dá como certo que, de facto, o vírus pode permanecer em tecidos durante cerca de dois dias. Lavar a roupa, de preferência à temperatura mais elevada possível, é a melhor solução. Contudo, não existe qualquer evidência de que o vírus não resista à luz solar, apesar de os cientistas dizerem que o microorganismo exposto a altas quantidades de raios ultravioleta pode desaparecer. Porém, essa quantidade de UV capaz de neutralizar o microorganismo é muito superior à emitida pela luz solar.

O vírus resiste até nove dias em superfícies metálicas: falso

A publicação sugere que a lavagem de superfícies deve ser cautelosa e frequente, uma vez que o vírus pode resistir, nelas, até nove dias, mas é falso. No máximo, em aço inoxidável, o microorganismo tem sido detetado até quadro dias, nunca nove, como a publicação sugere.

Fumar aumenta o risco de infeção: verdadeiro

Esta dica é verdadeira e tem sido amplamente disseminada por órgãos de comunicação, autoridades de saúde e pela Organização Mundial da Saúde, que alertou para os riscos do tabaco perante a Covid-19, através de uma publicação no Twitter. Para a OMS "fumar danifica os pulmões e outras partes do corpo, e fá-lo mais vulnerável à infeção por Covid-19. É o tempo ideal para deixar de fumar, por uma saúde mais segura e melhor".

Lavar as mãos durante 20 segundos, a cada 20 minutos: parcialmente verdadeiro

É certo que a higiene das mãos é uma das medidas mais eficazes para prevenir a infeção pelo novo coronavírus. Essa lavagem deve ser cuidada, e durar, no mínimo, 20 segundos, porém não há qualquer indicação de que tenha de ser feita de 20 em 20 minutos. As autoridades de saúde recomendam que seja feita, por exemplo, antes de preparar refeições, depois de assoar o nariz, depois de estar num sítio público, ou antes de tocar nos olhos, nariz ou boca.

Fazer uma alimentação saudável: verdadeiro

Comer saudável é sempre uma boa ideia, especialmente reforçada pela OMS nesta altura, uma vez que um corpo saudável é um corpo melhor preparado para enfrentar a doença.

Os animais não transmitem o novo coronavírus: incerto

A publicação com dicas para evitar o novo coronavírus, que estamos a desmontar, garante que a Covid-19 só se transmite de pessoa para pessoa. Contudo, esta não é uma verdade absoluta. No site oficial, a Organização Mundial da Saúde diz que "os coronavírus são uma ampla família de vírus que são comuns em animais. Possíveis fontes animais da Covid-19 não estão confirmadas". Neste ponto, é importante não esquecer que ciência e autoridades de saúde acreditam que a doença tenha tido origem em morcegos, e que tenha tido um hospedeiro intermédio, também um animal, um pangolim, antes de se alojar em humanos. Ainda assim, o vírus e a doença por ele causada continuam a ser uma floresta por desbravar, o que deixa, para já, muitas perguntas sem resposta. Esta é uma delas.

Apanhar gripe e comer coisas frias enfraquece o corpo: parcialmente falso

Em tempos de pandemia, em que os serviços de saúde estão saturados, é sempre boa ideia prevenir outras doenças, se assim for possível. Contudo, é falso que a temperatura da água ou da comida enfraqueça o sistema imunitário.

O vírus aloja-se na garganta antes de descer para os pulmões: falso

A publicação defende que o microorganismo fica na garganta durante três a quatro dias antes de se alojar nos pulmões. Porém, esta ideia é falsa: o vírus entra no organismo, e não em nenhum órgão em particular, porém pode afetar com mais predominância os pulmões.

Suster a respiração para fazer um teste ao vírus: falso

À parte das dicas para prevenir a doença, a publicação sugere um teste caseiro à infeção: basta, todas as manhãs, suster a respiração durante dez segundos. Caso este gesto não seja doloroso e não cause tosse significa que a pessoas não está infetada. Esta evidência é falsa, uma vez que existem pessoas infetadas sem qualquer sintoma, e existem pessoas infetadas que têm, por exemplo, febre e não apresentam qualquer tipo de tosse. Enfim, a única forma de segura de fazer um teste à doença é realizar a análise laboratorial que permite despistar ou confirmar a infeção por Covid-19.

À semelhança desta publicação, desconstruída pela Agence France Press, muitas outras têm merecido a análise e a verificação jornalística, precisamente porque apresentam informações falsas ou com falta de validação científica. Lembramos que as informações sobre a doença devem ser procuradas junto das autoridades de saúde, por exemplo no site da DGS, ou junto de órgãos de comunicação social considerados credíveis.

Emanuel Monteiro