Uma equipa de cientistas do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM) descobriu o "calcanhar de Aquiles" de umas células imunitárias que, em vez de protegerem o organismo contra o cancro, ajudam os tumores a crescerem.

A expressão é de Bruno Silva-Santos, líder da equipa e vice-presidente do IMM, cujo trabalho foi distinguido com o primeiro prémio "Janssen Inovação", no valor de 30 mil euros.

Bruno Silva-Santos e a restante equipa descobriram - numa experiência com ratinhos com cancro do fígado e da pele (melanoma) - que um subgrupo de linfócitos T (células do sistema imunitário), que "ajuda o tumor a crescer", é "muito suscetível ao 'stress' oxidativo", ao contrário da generalidade dos linfócitos T, que protegem o organismo contra "invasores".

O investigador, que dirige o laboratório de diferenciação de linfócitos T e oncoimunologia, explicou à Lusa que tal acontece porque "os linfócitos pró-tumorais", por oposição aos linfócitos T 'bons' - que são antitumorais - estão 'desprotegidos' por terem muito pouco glutationo, um antioxidante.

Segundo os cientistas, os linfócitos T 'maus' comunicam com os neutrófilos, células de defesa do organismo 'boas' que produzem determinadas substâncias, as chamadas espécies reativas de oxigénio, que são compostos químicos que resultam da ativação ou redução do oxigénio molecular.

Tais substâncias, usadas pelo sistema imunitário para atacar ou 'matar' agentes patogénicos, "interferem com a respiração da célula" e com o seu funcionamento, levando à "oxidação da célula".

As células, 'normais' ou tumorais, necessitam de "usar o oxigénio de forma eficaz" para desempenharem a sua função. Quando entram em 'stress' e o oxigénio não é utilizado de forma eficaz, a célula oxida, não tem a energia de que precisa e fica disfuncional. 

A equipa de Bruno Silva-Santos, que pretende alargar o estudo, ainda por publicar, a outros tipos de cancro, descobriu que é possível inutilizar a função das células T 'más' se for induzido 'stress' oxidativo dentro delas, o que é feito naturalmente pelos neutrófilos.

O futuro será desenhar fármacos que possam fazer dentro do tumor este processo, induzir a oxidação destas células para que não estejam funcionais", sustentou o investigador, acrescentando que a imunoterapia melhorará se foram estimuladas as células anti-tumorais e inibidas as células pró-tumorais.