De traje engomado vestido, capa exemplarmente dobrada ao ombro e com o orgulho e verticalidade de quem cumpre um sonho antigo, Brasilino Godinho entra no campus da Universidade de Aveiro. E dia de receber o diploma da licenciatura e Brasilino destaca-se dos outros estudantes pelos cabelos (poucos) brancos. Tem 82 anos e é um dos mais recentes, mas talvez o mais velho licenciado de Portugal.

Sonhava vestir o traje da academia há quase 70 anos. Desde a adolescência que queria entrar na universidade e tirar um curso superior. «Sempre que eu tentava encetar os primeiros passos, surgiam situações que me obrigavam a desistir. Estabeleciam-se outras prioridades que eu tinha de atender forçosamente», conta à reportagem da TVI.

Hoje cumpriu o sonho. Depois de várias tentativas frustradas, dois filhos, três netos e uma vida de trabalho, pediu dinheiro ao banco para pagar as propinas, inscreveu-se no ensino superior e só contou à família depois de a nora, professora na Universidade de Aveiro, o ter descoberto por acaso no edifício da Reitoria. Foi caloiro ao mesmo tempo que a neta mais velha, agora quase médica.

«Foi muito engraçado porque na altura que eu entrei para a universidade foi a altura que o meu avô também decidiu que queria completar este sonho da sua vida. Íamos partilhando experiências, falando como era a nossa vida de caloiro¿», revela a neta Rita Godinho

Este topógrafo reformado recebeu o diploma das mãos da própria nora. Confessa a «pena» por os pais e a mulher, «o grande amor» da sua vida, não terem vivido para ver este momento. Licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas, com média de 15 valores. Merece, também por isso, os elogios de colegas e professores. «É um caso exemplar a vários níveis. Desde logo por querer continuar a aprender, pelo mérito com que o fez porque foi um dos melhores alunos do curso», sublinha o Reitor Manuel Assunção, que fez questão de aceitar o convite para o almoço que Brasilino deu a familiares e amigos.

Foram quatro anos de noites mal dormidas e alguns problemas de saúde. No último ano, um exame de rotina detetou-lhe dois AVC. O médico queria que desistisse do curso e a resposta foi pronta: «Nunca!». Mas aceitou abrandar e o terceiro ano foi feito em dois. A média desceu dos 16 para os tais 15 valores. Mas não desistiu!

Concluída a licenciatura, resolveu avançar para o doutoramento em Estudos Culturais, também na Universidade de Aveiro, no mesmo campus cujas infraestruturas ajudou a projetar.

Uma vida profissional que o apaixonou, mas que o deixava frustrado por não ser engenheiro diplomado e por isso não poder assinar os projetos que orientava. «Sermos nós os autores de um trabalho e não o podermos apresentar nas repartições oficiais ao público como nosso é muito frustrante», reconhece.

Agora, de diploma na mão, Brasilino não pretende voltar ao mercado de trabalho, mas quer que a sua história acorde consciências adormecidas. «Neste país, os idosos são relegados, desprezados, abandonados. É como se fossem colocados numa reserva, num depósito de lixo, são um encargo para a sociedade. (¿) Estou a prestar um serviço cívico à sociedade, na medida em que constituo um exemplo para os jovens e até para os idosos», diz com convicção.

«É um prazer imenso ser amigo de uma pessoa como ele. Uma referência de vida para todos nós que estamos a tirar o doutoramento. É um grande amigo. Um exemplo que vou levar para o Brasil», atesta Raimundo Pereira, colega de Brasilino no doutoramento.

Daqui a dois anos, este homem cheio de esperança e vitalidade quer voltar a reunir amigos e família para comemorar a conclusão de mais um passo na vida académica e chamar-se doutor por direito.
Manuela Micael