Ainda antes da breve entrada e saída de cena do ministro Miguel Relvas no ISCTE, a conferência organizada pela TVI, sobre o «Jornalismo nos Próximos 20 Anos» já tinha deixado vários motivos de discussão. A começar pela evidência de que a definição dos media perante a realidade do online é tema incontornável nas reflexões atuais.

A certeza começou na intervenção inaugural, da norte-americana Lois Beckett, do projeto Propublica, uma publicação online de jornalismo de investigação que recorre ao «data journalism». A aproximação de conceitos entre jornalista e programador foi uma das ideias fortes defendida por Beckett, que admitiu a convicção de que o jornalismo de investigação, pelos meios que envolve, «nunca» será lucrativo. «Mas é importante para a democracia», defendeu, antes das perguntas de um painel algo cético quanto à possibilidade de a fórmula ter sucesso generalizado. Mais ainda num contexto sem a cultura de filantropia dos EUA, que permite ao Propublica e aos seus 38 jornalistas-programadores, um orçamento anual de 10 milhões de dólares à custa de doações a fundo perdido.

Apesar do contexto de crise, Beckett deixou a ideia de que, por influência do online, «o público especializado tem hoje mais e melhor jornalismo» se for capaz de procurá-lo, enquanto o público de nível médio está mais mal servido do que antes pelos media generalistas, cujo nível, admite, «baixou».

A culpa é da internet

Parte da responsabilidade por essa queda está nas empresas de media, afirmou a seguir Juan Luis Cebrian, presidente executivo do grupo Prisa, que sublinhou a incapacidade das organizações jornalísticas para «transformar a sua cultura e negócio» perante a concorrência de novas realidades como o Google. «Fatura mais em publicidade do que todos os jornais dos EUA», sublinhou.

Miguel Sousa Tavares levou ao extremo esta ideia e transformou o universo online no maior adversário do jornalismo. O corolário da sua intervenção, depois do lamento de não ter visto no ISCTE «um único estudante com jornal sob o braço», foi a frase mais radical do dia: «o jornalismo de referência tem de ter a coragem de ignorar por completo o que se passa na internet», concluiu, identificando os problemas do jornalismo com a «informação basista» que, acusa, domina a internet. Daniel Proença de Carvalho aproveitou para ironizar na intervenção seguinte, assumindo-se como «um leitor religioso dos textos de Sousa Tavares, mas no meu iPad, que dá mais jeito».

Portugal velho, Portugal novo

Depois de um debate sobre às potencialidades do mercado lusófono de media, a sessão da tarde trouxe o painel mais concorrido, com Jorge Sampaio, Marcelo Rebelo de Sousa e Carlos Magno a coincidirem num tom relativamente otimista quanto ao futuro do jornalismo. O ex-presidente da República lembrou que a sociedade «precisa de jornalismo de causas, porque há muitas causas sem voz», e defendeu a criação de «novas avenidas de liberdade» no discurso mediático.

Mais poética, Pilar del Rio citou um antigo mestre: «o dia em que se acaba a curiosidade é o dia em que estamos mortos», afirmou, para sublinhar a responsabilidade dos jornalistas em interrogar o que há em redor. Marcelo Rebelo de Sousa, por sua vez, preferiu uma pincelada sociológica para opor o «Portugal velho, de 55 anos ou mais, que lê pouco e prefere a TV generalista» ao «Portugal novo, que prefere a internet e não cultiva os media generalistas», tendo os horizontes mais abertos para o exterior. Superados anos difíceis até 2015, profetiza, será este «Portugal novo» a decidir «a força do jornalismo, perante a força do lazer e entretenimento».

Foi esse o mote para o último painel, dedicado à formação do jornalista que dos próximos 20 anos. E foi então que Miguel Relvas entrou na sala e o «Portugal Novo» se transformou em notícia.
Nuno Madureira