Avraham Milgram, investigador do Yad Vashem em Jerusalém, disse esta segunda-feira nas conferências sobre «Portugal e o Holocausto» que o Estado Novo evitou ajudar judeus portugueses na Holanda e na Grécia.

«O caso mais conhecido foi quando Salazar não reconheceu os quatro mil judeus de origem portuguesas, na Holanda, mas sem vínculo formal a Portugal. Este episódio faz de Salazar um cúmplice involuntário», disse o investigador israelita, referindo-se também aos casos sobre os judeus portugueses da origem turca ou grega.

Segundo Avrahm Milgram, criou-se uma memória positiva mas, contudo, a memória em Portugal é parcial e não compreende todos os aspetos e é preciso compreender certos aspetos do passado para se compreender toda a História.

«Aliás, Portugal e Espanha estavam mais preocupados em salvaguardar as propriedades das vítimas do que as vítimas, propriamente», disse o investigador.

Durante o debate, Avrahm Milgram mostrou-se surpreendido com o estudo de João Campos Neves do ISCTE sobre as missões de observadores militares do Estado-Maior Português à Alemanha e às frentes de batalha no Leste da Europa durante a II Guerra Mundial porque as visitas situaram-se, quer na zona do Báltico, quer na região da Ucrânia, em locais onde se localizaram massacres de milhares de judeus.

Os relatórios não incluem referências à perseguição dos judeus, mas segundo a historiadora Irene Pimental existem referências sobre a passagem de observadores militares portugueses pelos locais, apesar de não constar dos documentos oficiais.

«Não está no relatório, mas Portugal começou a saber de tudo nessa missão em 1941, sobre o massacres de judeus nos países bálticos e nas perseguições na Alemanha e também através do que se sabia da Divisão Azul espanhola (contingente espanhol na frente Leste junto do Exército alemão) e que também assistiu aos crimes», disse Irene Pimentel.