Em Portugal, há jovens que são violados depois de tomarem uma bebida com Ketamina. A denúncia parte do Instituto Europeu para o Estudo de Factores de Risco (IREFREA), uma organização não governamental. O medicamento veterinário, usado sem peso nem medida nos humanos, provoca alucinações e amnésia. A GNR confirma que está de olho nesta nova moda. Nunca perder de vista o copo que está a beber é o melhor. Umas gotas na bebida e, depois, as vítimas «deixam de perceber onde estão, com quem estão e a forma como estão», explica Fernando Mendes, o representante do IREFREA em Portugal. Ainda para mais, a Ketamina não tem cor, cheiro ou sabor.

O alerta sobre o uso da Ketamina, também conhecida como «Special K» ou «K», vem sendo feito por Fernando Mendes «há uns dois anos», mas, em vésperas de Queimas das Fitas dos estudantes universitários um pouco por todo o lado, o psicólogo de Coimbra pede maior sensibilização e cautelas dos jovens para esta realidade relativamente desconhecida no nosso país, mas que já acontece bastante «em contextos recreativos pela Europa».

A GNR confirma à tvi24.pt que «existem jovens na zona norte do país que estarão a fazer uso» do «IMALGEN 1000, cuja substância ativa é a 'catamina@Katamina'». Acrescenta que o «medicamento custa 20 euros, tendo sido largamente procurado ao fim de semana nas farmácias por jovens daquela zona, podendo, no entanto, esta prática estar difundida noutras zonas do país», de modo que a Guarda tem reforçado o policiamento junto de discotecas, festivais e festas.

A Ketamina é um «analgésico muito potente» usado por veterinários, nomeadamente em «animais de grande porte», pelo que «quando sai do circuito» médico, com «dosagem em função do peso», pode ter efeitos «físicos e psicológicos graves». Embora, até ao momento, Paula Andrade, do Instituto da Droga e da Toxicodepência, refira que «tem pouca expressão», em Portugal, tendo sido detetado ocasionalmente em dependentes crónicos.

O professor de toxicologia da Universidade do Porto, Félix Carvalho, em declarações à TVI, diz que «o efeito aparece ao final de alguns minutos e pode demorar até três horas». Destaca também o «efeito hipnótico», o que significa que a vítima fica muito susceptível à sugestão por outras pessoas».

Ciente de que a ingestão deste medicamento «provoca alucinações e perda de consciência» e de que «o uso recorrente daquela substância já resultou em casos de morte e outros episódios na Europa», a GNR nunca fala, no entanto, em casos de violações.

O efeito «amnésico» parece ser o inimigo número um das queixas de violação às autoridades. «O problema é que muitas vezes as pessoas quando acordam não têm consciência logo do que lhes aconteceu», e acabam por se «lavar», por exemplo. «Muitas vezes quando percebem [o que lhes aconteceu] as pessoas têm vergonha, têm medo», conta Fernando Mendes.

No Instituto de Medicina Legal (IML), responsável pela perícia forense a casos de violação, «não foi detetado» nenhum caso de violação com análises positivas à Ketamina, no último ano, mas isso não quer dizer que não tenham existido. «As circunstâncias da recolha da amostra», o lapso de tempo que vai entre a ingestão e o exame forense pode ser determinante. Como explica Mário João Dias, do IML, em abstracto, [a droga] já pode ter sido transformada ou eliminada e não é possível a sua deteção».

Fernando Mendes garante à tvi24.pt de que «tem conhecimento de alguns casos de violação», mas que as vítimas «falam pouco» e muito menos com a polícia. Um silêncio que esconde, mas não apaga os «estados traumáticos» que acabam por viver. Histórias de vida que Fernando Mendes vai ouvindo, no seu trabalho e nas brigadas de rua.
Redação / Carmen Fialho