Os transplantes pulmonares são os únicos que estão a aumentar este ano, segundo os dados da Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação. Entre janeiro e junho de 2011, tinham sido realizadas nove destas cirurgias, enquanto no mesmo período de 2012 foram realizadas dez.

Os responsáveis encontram-se no Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, o único do país a transplantar pulmões. «Isto aconteceu porque sentimos uma responsabilidade enorme, sendo os únicos do país a transplantar pulmões e tendo doentes à espera. Todo o dador que apareça aqui em condições é aproveitado», explicou ao tvi24.pt o diretor do serviço, no âmbito do Dia do Transplante, comemorado esta sexta-feira.

José Fragata admite que o «ambiente económico está a afetar claramente a Saúde» e não é «nada favorável» a que os números aumentem, sublinhando que «os países sob assistência financeira têm visto a sua taxa de transplantação a cair». «Percebe-se que não haja dinheiro, mas até é uma oportunidade para fazer melhor», disse, recordando que, com os cortes nos incentivos à transplantação decididos pelo Governo, os cirurgiões passaram a receber metade.

«Independentemente disso, somos médicos e sentimos o peso da responsabilidade. Apesar de nos pagarem menos, transplantamos mais. Como se pode não transplantar quando há pessoas em casa à espera?», questionou.

O diretor espera realizar «mais de 20 transplantes este ano», sendo que, neste momento, já foram efetuados «11 ou 12». José Fragata elogia a «equipa muito coesa» do Hospital de Santa Marta, com «entre 10 a 13 médicos, desde cirurgiões a anestesistas e pneumologistas», e assegura que «a experiência dos mais velhos está a ser passada aos mais novos». «É uma questão de serviço público», resumiu.

Segundo o responsável pela Cirurgia Cardiotorácica, todos os anos surgem «cerca de 25» pessoas a necessitar de transplante de pulmão. Para reduzir a espera, José Fragata admite a necessidade de «mais uma unidade de transplantação pulmonar a nível nacional», mas explica que também há benefícios em serem os únicos a fazê-lo: «Quando começamos a fazer mais de 15 por ano, também começamos a sentir o efeito experiência. Quantos mais fazemos, melhor os fazemos».

Desde que foi nomeado diretor, em 2006, foram realizados 55 transplantes do pulmão. «Temos tido um crescimento muito bom, com a liderança correta, disciplina e resiliência», afirmou, recordando que, no início deste ano, o serviço efetuou o primeiro transplante de pulmão numa criança.

José Fragata frisou que, com a diminuição dos acidentes rodoviários, «mudou o paradigma dos dadores». «Quando comecei a transplantar pulmões, os dadores eram tipicamente os motociclistas jovens, com órgãos ótimos. Agora são mais velhos, com AVC e aneurismas. Os dadores não são tão bons, felizmente», explicou.

Nesta especialidade, a redução do número de órgãos colhidos em cadáveres não se faz sentir. «As exigências do pulmão são muito grandes. Em 100 dadores globais, normalmente só 20 se aproveitam. Temos aceitado 20 a 25 por cento do que nos oferecem, aceitamos órgãos um bocadinho piores», justificou.

Como o número de cadáveres «tem chegado» para as exigências do serviço, o diretor confessa que não tomou como «prioridade» a transplantação de um dador vivo, que passou a ser uma aposta de sensibilização da Sociedade Portuguesa de Transplantação. «Só há dois centros no mundo que o fazem e, até agora, tive apenas como intenção tornar a nossa atividade credível», concluiu.
Catarina Pereira