O presidente do EuroBic, Fernando Teixeira dos Santos, considerou esta quinta-feira, em entrevista à RTP, que a sua reputação não foi manchada por trabalhar num banco que tem como acionista Isabel dos Santos, na sequência dos "Luanda Leaks".

A engenheira Isabel dos Santos foi elogiada, muito venerada [no passado], e por isso eu creio que estar num banco em que ela é acionista não tem necessariamente de manchar a reputação de quem aqui tem procurado fazer um bom trabalho", defendeu Teixeira dos Santos.

O EuroBic, liderado pelo também antigo ministro das Finanças, tem como acionista Isabel dos Santos (com 42,5%), e já anunciou que cortou todas as relações comerciais com a empresária e que a sua participação no banco será vendida na sequência da divulgação dos "Luanda Leaks".

No entanto, Fernando Teixeira dos Santos admitiu que "certamente que não" voltaria a aceitar o convite para liderar o EuroBic, caso pudesse voltar atrás.

Teixeira dos Santos, igualmente professor universitário, afirmou que a presença de Isabel dos Santos na Sonangol não poderia colocar dúvidas ao EuroBic, mas, sim, "à própria Sonangol", e garantiu que as operações de transferência de fundos de uma conta do banco para uma empresa no Dubai, alegadamente ligada a Isabel dos Santos, foram legais.

As ordens que foram dadas são inteiramente legítimas, foram ordens dadas por pessoas legitimadas pela Sonangol para movimentar a conta, entre elas a engenheira Isabel dos Santos, mas várias pessoas estão identificadas", declarou.

O presidente do EuroBic garantiu também que as ordens recebidas pelo banco para fazer as transferências "foram dadas antes de vir a público a notícia da exoneração da engenheira Isabel dos Santos" de presidente da Sonangol, em 15 de novembro de 2017.

A Sonangol nunca interpelou o banco, nunca nos questionou, nunca pôs em causa os movimentos que constam desse extrato que têm a ver com as referidas transferências", revelou.

O antigo ministro das Finanças disse ainda que as operações "não têm de ser reportadas ao Banco de Portugal", mas admitiu que, na sequência do 'Luanda Leaks', a reação do banco foi "pedir, de imediato, uma auditoria" para esclarecer se a Matter Solutions, empresa sediada no Dubai que recebeu as transferências provenientes do EuroBic, estava relacionada com Isabel dos Santos.

Esse é um elemento novo, inteiramente desconhecido que tinha algum tipo de ligação com Isabel dos Santos. Aliás, na altura foi-nos expressamente dito, quando as operações foram devidamente analisadas pelos nossos serviços de 'compliance' [conformidade], que a Matter não tinha qualquer ligação à engenheira Isabel dos Santos", salientou Teixeira dos Santos.

O presidente do EuroBic acrescentou que já "há manifestações de interesse" e "contactos" do mercado para adquirir os 42,5% do banco atualmente detidos por empresas de Isabel dos Santos.

Estamos todos empenhados em que rapidamente tenhamos uma solução para que se concretize efetivamente e formalmente aquilo que já é, de facto, o afastamento da engenheira Isabel dos Santos do banco", adiantou.

Questionado se "dorme bem quando se deita", Teixeira dos Santos respondeu afirmativamente.

Sem dúvida que isto causa um dano, não é bom para o negócio, mas não põe em causa, de forma alguma, o banco", defendeu, rejeitando ainda qualquer conflito de interesses pelo facto de o EuroBic ser o sucessor do BPN, que nacionalizou enquanto ministro das Finanças.

O Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação revelou no dia de 19 de janeiro mais de 715 mil ficheiros, sob o nome de "Luanda Leaks", que detalham esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, que terão permitido retirar dinheiro do erário público angolano, utilizando paraísos fiscais.

A investigação revela que, em menos de 24 horas, a conta da Sonangol no EuroBic Lisboa foi esvaziada e ficou com saldo negativo no dia seguinte à demissão da empresária da petrolífera angolana, depois de transferências para o Dubai.