O Governo está a preparar o próximo inverno, para uma eventual segunda vaga de Covid-19, com reforço, em termos humanos e técnicos so Sistema Nacional de Saúde e da Saúde Pública. A Secretária de Estado Adjunta e da Saúde, Jamila Madeira, especificou, esta quarta-feira, na conferência de imprensa em que foi feito o ponto da situação epidemiológica, que esse reforço será feito, nomeadamente, na Madicina Intensiva e a nível laboratorial. As medidas, assegurou a governante, estão já previstas no Orçamento Suplementar. 

Jamila Madeira garantiu ainda que está previsto um reforço ao nível da saúde pública e que está a ser feito, igualmente, um reforço de reservas estratégicas de Equipamentos de Proteção Individual (EPI's) e medicamentos, quer a nível geral, quer em cada unidade de saúde. 

O Governo está a reforçar todas as dinâmicas instaladas no terreno e colocá-las-á ao dispor na próxima época outono/inverno”, declarou.

Medidas para o próximo ano letivo

Também na conferência de imprensa, a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, reiterou, que há "múltiplas medidas" no arranque do novo ano letivo para prevenir infeções pelo novo coronavírus, salientando que a distância mínima de um metro entre alunos não deve ser "vista isoladamente".

As medidas previstas para as escolas são múltiplas. Não é apenas uma medida", afirmou Graça Freitas, durante a habitual conferência de imprensa sobre a pandemia da Covid-19 em Portugal.

De acordo com a diretora-geral de Saúde, o documento com as orientações para as escolas no arranque do novo ano letivo prevê medidas como "circuitos diferentes, utilização de máscaras por toda a comunidade educativa, uma determinada disposição das carteiras nas salas, uma determinada utilização dos espaços e a sua higienização".

O primeiro-ministro considerou esta quarta-feira que o país não aguenta um novo período de confinamento por causa da Covid-19 e avisou que o tempo é "curtíssimo" para a sociedade se preparar para o próximo inverno.

Esta advertência foi deixada por António Costa no discurso que encerrou a apresentação do programa Simplex 20-21, no Pavilhão do Conhecimento, no Parque das Nações, em Lisboa, durante uma sessão em que estiveram presentes dez ministros dos atual Governo.

Não há provas de reinfeções

A diretora-geral da Saúde afirmou também que não há provas de que possa ocorrer uma reinfeção de alguém que já tenha tido Covid-19, mas que pode haver testes positivos devido à presença de “partículas virais”.

Não há neste momento evidência de que haja reinfeção nem que as pessoas que venham a testar positivo [depois de consideradas curadas] tenham a capacidade de transmitir” a doença, afirmou Graça Freitas em conferência de imprensa de acompanhamento da pandemia no Ministério da Saúde.

No entanto, deve manter-se “o princípio da cautela”, defendeu, e mesmo depois de dadas como curadas ao fim de dois testes negativos, as pessoas devem “manter as medidas” de precaução para evitar contrair ou transmitir o novo coronavírus, como o uso de máscara, lavagem das mãos ou etiqueta respiratória.

Consultas não presenciais aumentaram 65% face a 2019

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) assegurou "mais de oito milhões de consultas não presenciais" desde o início do ano, representando um aumento de 65% face a 2019, afirmou  secretária de Estado Adjunta e da Saúde.

Desde o início do ano foram realizadas mais de oito milhões de consultas não presenciais", salientou Jamila Madeira, durante a habitual conferência de imprensa sobre a pandemia da covid-19 em Portugal.

Segundo a secretária de Estado, este valor representa um aumento de 65% em relação a 2019.

Jamila Madeira referiu também que, desde o início do ano, a linha SNS 24 deu resposta a cerca de 1,4 milhões de chamadas e a plataforma de acompanhamento de doentes Trace Covid registou, em média, cerca de cinco mil utilizadores ativos por dia.

Através dessa plataforma, já foram realizadas 1,45 milhões de vigilâncias por telefone, acrescentou.

De acordo com a governante, estes números mostram a aposta do Governo na utilização dos meios tecnológicos, referindo que, ao abrigo do Orçamento Suplementar, será aumentada a rede de equipamentos existentes nos centros de saúde, com aquisição e entrega de mais kits de telessaúde.

Imunidade após infeção no centro das dúvidas do combate ao vírus

O nível de imunidade adquirida após a recuperação deã doença covid-19 é uma das maiores dúvidas no combate científico e médico à pandemia e há já vários estudos a apontarem para uma existência pouco duradoura de anticorpos.

A indefinição em torno da imunização e de aparentes casos de reinfeção foi reconhecida hoje pela diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, que reiterou a importância da “humildade” de se assumir o desconhecimento da doença, ao salientar que se trata de “situações que não são ‘preto ou branco’”.

Em resposta a uma questão da Lusa, explicou que pessoas que voltem a testar positivo depois de debelar a infeção podem não estar verdadeiramente doentes.

Pode significar apenas que, a nível da sua árvore respiratória superior, existam partículas do vírus e que o teste as detete, mas não quer dizer que sejam partículas viáveis do vírus e que sejam capazes de criar outra vez doença ao próprio ou a outras pessoas”, afirmou, sublinhando que, neste momento, “não há nenhuma prova inequívoca, nem em Portugal, nem em nenhum país, que exista esse fenómeno da reinfeção”.

Cerca de quatro meses depois da declaração de pandemia por parte da Organização Mundial de Saúde (OMS) e mais de seis meses após a descoberta do novo coronavírus em Wuhan, na China, cientistas de todo o mundo trabalham em contrarrelógio para o desenvolvimento de uma vacina ou de tratamentos específicos para a infeção causada pelo SARS-CoV-2.

De acordo com virologistas, a imunidade a outros coronavírus – como os responsáveis pela síndrome respiratória aguda (SARS) em 2003 e a epidemia de síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS) em 2012 – não é particularmente extensa, rondando entre ano e meio e três anos. Contudo, um estudo da universidade britânica King’s College London, divulgado esta semana, indicou que a imunidade à covid-19 pode desaparecer em poucos meses.

A validar-se a conclusão deste estudo por investigadores não envolvidos na pesquisa, a eficácia de uma eventual vacina pode ser colocada em causa ou obrigar a administrações regulares.

Segundo o estudo, que analisou a resposta imunológica em mais de 90 casos confirmados, os níveis de anticorpos neutralizantes capazes de destruir o SARS-CoV-2 atingiram o pico médio em torno de três semanas após o início dos sintomas.

Com efeito, apenas 16,7% dos pacientes ainda apresentavam altos níveis de anticorpos neutralizantes 65 dias após o início dos sintomas, o que levanta dúvidas sobre a ideia de “imunidade de grupo” – na qual 60% a 70% da população precisaria de já ter tido contacto com o vírus - como uma estratégia de resposta eficaz à pandemia.

Quem mais se aproximou deste conceito de imunização foi a Suécia, que se opôs ao confinamento e nunca fechou escolas, cafés, bares ou restaurantes, apenas pedindo a cada um responsabilidade e respeito pelo distanciamento social.

Porém, um estudo da Agência de Saúde Pública revelou em 20 de maio que somente um em cada cinco habitantes de Estocolmo poderá ter desenvolvido anticorpos e que os números seriam ainda inferiores no resto do país.

Em Portugal, os resultados do primeiro estudo serológico para aferir a imunidade da população devem ser conhecidos até ao final de julho. Conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), em articulação com a Direção-Geral da Saúde (DGS), o inquérito – com uma amostragem superior a 2.000 participantes e que envolveu 17 hospitais e 105 postos de colheita - será seguido nos próximos meses por três novos estudos serológicos.

Paralelamente, o grau de imunidade é ainda influenciado pela gravidade que a infeção teve no doente. De acordo com um estudo do Instituto Pasteur, em França, anunciado publicamente em 26 de maio, uma grande maioria de pessoas doentes com covid-19 e com sintomas ligeiros cria anticorpos que os podem imunizar durante várias semanas contra a doença, o que, em teoria, protege os doentes curados de uma nova infeção no curto prazo.

Em aberto está também uma hipotética proteção imunológica superior de diferentes populações. Um estudo do Centro de Estudos de Ciência Avançada e Tecnologia da Universidade de Tóquio, apresentado no final de maio, apontou para uma maior proteção imunológica das populações do Japão e de outros países da Ásia oriental devido à exposição anterior a patógenos relacionados, o que poderia explicar a menor mortalidade nesta região.

As diversas incertezas em torno da imunidade à covid-19 refletem também a postura cautelosa da OMS ao longo do processo.

Já em 17 de abril, o organismo aconselhou prudência aos países no uso de testes serológicos para retirar conclusões sobre imunidade, não só por algum défice de sensibilidade dos testes nessa fase, mas também por o mero contacto com o vírus não permitir uma avaliação rigorosa do nível e da durabilidade da proteção adquirida.

No entanto, especialistas apontam também que a imunidade não se baseia somente na produção de anticorpos, uma vez que o corpo produz células imunes (B e T), ou seja, células de memória imune que podem ser desencadeadas para nova resposta imunitária face a uma nova infeção pelo vírus. Uma linha de investigação citada hoje por Graça Freitas, que vincou que “pode haver alguma imunidade feita por essas células” à covid-19.

Nesse sentido, a nível de política de imunidade, a DGS assegurou estar “a acompanhar os inquéritos do resto do mundo” e Graça Freitas aproveitou para frisar que, a nível internacional, pensa-se cada vez mais que “a imunidade individual – aquilo que se chamou em tempos o passaporte de imunidade - tem pouco valor”.

A procura de uma vacina eficaz mobilizou - como nunca se tinha visto – a comunidade científica a nível mundial, num esforço conjunto e que tem batido recordes na redução dos prazos habituais de desenvolvimento e testes.

Em abril, um balanço divulgado pela revista científica Nature contabilizava mais de 100 vacinas candidatas contra a Covid-19, com a primeira vacina candidata a iniciar os testes em 16 de março, nos Estados Unidos.

A maioria das vacinas candidatas, sobre as quais existia então informação disponível, pretende induzir a formação no organismo de anticorpos (glicoproteínas) neutralizadores da proteína-chave do coronavírus, a chamada proteína da espícula, que permite que o SARS-CoV-2 entre nas células humanas ao ligar-se a uma enzima (substância proteica), a ACE2.

Austrália serve de exemplo a Portugal

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, disse que Portugal está a olhar para a situação epidemiológica da Austrália, o “grande radar” do hemisfério sul que está agora no seu inverno para prever o que possa acontecer nos meses frios na Europa.

Tiveram uma primeira onda [de Covid-19], conseguiram baixá-la e enfrentam agora uma segunda onda simétrica à primeira”, referiu.

Portugal regista esta quarta-feira mais oito mortes e 375 casos novos casos de infeção por Covid-19, segundo o boletim diário da Direção-Geral de Saúde (DGS). 288 dos quais na região de Lisboa e Vale do Tejo.

O total de vítimas mortais é, agora, de 1.676 enquanto os casos confirmados como positivos são 47.426.

O boletim desta quarta-feira regista ainda mais 560 doentes recuperados, num total de 32.110 pessoas que foram consideradas curadas.

Manuela Micael / Atualizada às 15:08, com LUSA