Quase oito anos depois da tragédia que vitimou seis adolescentes na praia do Meco, o único sobrevivente dessa noite contou em tribunal a sua versão dos factos. Segundo João Gouveia, que era dux da Universidade Lusófona à altura, o grupo foi apanhado por uma "onda lateral", numa noite em que os jovens estariam a realizar praxes universitárias.

Depois disso, segundo se lembra, foi empurrado para zona de rebentação, ficando sem pé, naquilo que descreveu como "ondas em jeito de máquina de lavar".

Questionado pelo juiz sobre como se conseguiu salvar, João Gouveia diz que não há uma resposta certa, acabando por explicar que se conseguiu livrar da capa universitária que trazia ao pescoço.

No tribunal de Setúbal, e num processo em que as famílias pedem uma indemnização pela morte dos seis jovens, João Gouveia contou que se tentou acalmar, evitando nadar contra a corrente, para não gastar energia desnecessária.

Acrescentou que em adolescente praticava bodyboard, altura em que aprendeu técnicas de natação.

De seguida, e quando conseguiu sair do mar, pegou no telemóvel e ligou para o 112.

Demoraram cerca de 20 a 30 minutos a chegar", referiu, explicando que foi encontrado por dois agentes da Polícia Marítima, que o socorreram.

Os agentes terão então pedido indicações sobre o paradeiro dos colegas de João Gouveia, e pouco depois chegou o INEM, que levou o jovem de ambulância para o Hospital Garcia de Orta.

João Gouveia respondia a perguntas do advogado das famílias das vítimas, na primeira audiência de julgamento do processo cível em que familiares dos seis jovens que morreram na praia do Meco, em 15 de dezembro de 2013, reclamam indemnizações no valor global de 1,3 milhões de euros.

Durante a manhã, em que respondeu a perguntas da juíza do processo e do advogado das famílias Vítor Parente Ribeiro, João Miguel Gouveia negou sempre que a ida à praia do Meco tivesse sido uma atividade de praxe, alegando ter sido um passeio sugerido por Tiago e por Ana Catarina, dois dos seis jovens falecidos.

Confrontado pelo advogado Vítor Parente Ribeiro com as mensagens de telemóvel que enviou a alguns colegas, nomeadamente uma mensagem em que perguntava se os jovens já teriam bebido um `penalti´ - que na perspetiva do representante das famílias demonstram que os jovens falecidos estavam obrigados a executar as atividades por ele determinadas -, João Miguel Gouveia negou que tivesse incentivado os seis jovens a consumirem álcool e recusou várias vezes que a ida à praia tivesse sido uma praxe.

As respostas de João Miguel Gouveia não convenceram o advogado das famílias, que disse não ter dúvidas de que o fim de semana em que os sete jovens se reuniram numa casa alugada em Aiana de Cima, Sesimbra, foi um fim de semana de praxe.

Penso que não há dúvidas de que foi um fim de semana de praxe. O réu tentou desvalorizar isso e passar a responsabilidade para os outros jovens, que falecerem e já cá não estão para se defender, mas fica evidente que ele tinha a responsabilidade do fim de semana, foi ele que o organizou, foi ele que definiu as atividades que tinham de fazer”, afirmou.

A defesa das famílias dos jovens sustenta que, “além da intervenção dos réus - o dux João Gouveia e a COFAC – Cooperativa de Formação e Animação Cultural, CRL (Universidade Lusófona) -, estão em causa o funcionamento da organização denominada COPA [Comissão Oficial de Praxes Académicas] no seio da ULHT [Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias] e atividades praxistas levadas a cabo ao longo dos anos”.

Para a defesa, estão também em causa as atividades praxistas levadas a cabo por João Gouveia durante o fim de semana de 13 e 14 de dezembro de 2013, que culminaram com a morte dos seis jovens, bem como os “elevados danos sofridos” pelos seus pais.

Estão arroladas três dezenas de testemunhas.

O inquérito às circunstâncias da morte dos seis jovens foi arquivado em julho de 2014 e reaberto em outubro do mesmo ano, quando o ‘dux’ João Gouveia foi constituído arguido.

Em março de 2015, o Tribunal de Instrução Criminal de Setúbal decidiu não enviar o processo-crime para julgamento e o Tribunal da Relação de Évora, após recurso da defesa, manteve a decisão, sublinhando que as vítimas eram adultas e não haviam sido privadas da sua liberdade durante a praxe, pelo que não havia responsabilidade criminal sobre João Gouveia.

Anabela Vaz Jacinto