O diretor demissionário do Museu de Serralves, João Ribas, disse hoje que apresentou a demissão “face à violação continuada” da sua “autonomia técnica e artística” e porque “nenhuma direção artística deve ser alvo de sistemáticas ingerências”.

Face à violação continuada da minha autonomia técnica e artística e do livre exercício das minhas funções, e por respeito ao Museu de Serralves enquanto instituição de referência nacional e internacional, não me restou alternativa melhor e mais consentânea com a ética profissional que perfilho, senão a demissão de funções”, declarou o curador, numa carta a que a Lusa teve acesso.

O diretor do Museu de Arte Contemporânea de Serralves demitiu-se depois da inauguração, na última quinta-feira, da exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures”, que comissariou, e que foi reduzida de 179 para 159 obras, fruto de “interferências e restrições” da administração, de acordo com o curador.

Esta quarta-feira, a presidente do Conselho de Administração diz que nunca houve censura em Serralves e culpou João Ribas.

Fotografias de nus, flores, retratos de artistas como Patti Smith ou Iggy Pop, e imagens de cariz sexual compõem a primeira exposição em Portugal do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe, que incluía ainda uma sala reservada a maiores de 18 anos com obras consideradas mais sensíveis.

Veja as imagens da polémica.

Ribas recorda ter assumido o cargo em 01 de fevereiro deste ano, depois de já ter exercido as funções de diretor-adjunto, e sai agora, uma vez que “não é admissível que a liberdade e a autonomia do diretor sejam desrespeitadas”, assumindo que o cargo “é incompatível com ingerências, pressões ou imposições que limitem a sua autonomia técnica e artística”.

Por outro lado, essas pressões poderão traduzir-se “em comportamentos de inadmissível repreensão da livre expressão das obras de arte ou das mensagens, harmonia ou lógicas próprias” que o curador queira dar à exposição, “como a das obras de Robert Mapplethorpe”.

De seguida, o curador elenca uma série de razões pelas quais decidiu abandonar o cargo, como a imposição de “restrições e intervenções que criaram um ponto de rotura em termos de autonomia artística e de uma atividade de programação livre de intromissões ou repreensões” ao programar “Pictures”, de Mapplethorpe.

Essas restrições tiveram consequências na “conceptualização expositiva, nomeadamente na semana de montagem”, e obrigaram a “sucessivas reorganizações”, bem como “na exibição de determinadas obras e na localização de outras”, o que levou a uma “descontextualização profunda”.

Isso obrigou a uma alteração dos trabalhos selecionados, “para que a exposição fosse um todo coerente e para que, assim, se promovesse de modo adequado o conhecimento e o diálogo social protagonizados por Robert Mapplethorpe”.

Segundo o diretor demissionário, estavam selecionadas para exposição 179 obras, mas esse número foi reduzido para 161 pelas interferências e, depois, “no dia da inauguração”, de novo limitada a 159.

Reforçando que a exposição do fotógrafo norte-americano “nunca foi concebida numa lógica proibicionista”, essa postura “não se traduz numa insensibilidade para com a comunidade” e revelou que tinham sido concebidos “mecanismos que permitissem aos visitantes fazer escolhas”.

A demissão “pretendeu ser uma mensagem dirigida à salvaguarda e reposição desses valores e princípios e à dignificação da Fundação e Museu de Serralves”, bem como “o silêncio” que tem mantido nos últimos dias.

À Lusa, várias fontes ligadas à instituição admitiram a existência de "um clima de medo e mal-estar" desde que Ana Pinho assumiu a presidência da administração, em 2016, e o número de trabalhadores da Fundação de Serralves diminuiu de 89 para 77, segundo os relatórios e contas de 2016 e 2017, num total de 18 saídas contra seis contratações.

Agradecendo “todas as manifestações de solidariedade”, o curador disse ainda não ter perdido “nem se encontram diminuídas as qualidades” que justificaram a contratação como diretor, em resposta a terem sido “divulgadas algumas falsidades e feitas imputações indevidas” sobre o seu comportamento profissional.

João Ribas, 38 anos, nasceu em Braga, viveu, desde a infância, quase sempre nos Estados Unidos, onde encetou a carreira de curadoria na galeria PS 1, afiliada do Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque (MoMA), com a historiadora Carolyn Christov-Bakargiev.

Trabalhou depois em instituições como The Drawing Center, em Nova Iorque, onde foi curador, assim como no MIT List Arts Center, em Cambridge, Massachusetts, de onde partiu para assumir o cargo de adjunto da anterior diretora do Museu de Serralves, Susanne Cotter, por convite desta, em janeiro de 2014.

Entre os projetos desenvolvidos este ano por João Ribas, em Serralves, estão a primeira exposição a solo do escultor britânico Anish Kapoor em Portugal, “Obras, Pensamentos, Experiências”, a instalação "Lessons 1-CLXXX", sobre a negritude, da artista norte-americana Martine Syms, e a mostra organizada a partir do acervo da fundação, “Zero em Comportamento”, num elogio à irreverência.

Num encontro tido hoje com a imprensa, hoje de manhã, o conselho de administração da Fundação de Serralves garantiu não ter mandado retirar qualquer obra da exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe.

“Em Serralves não há, nem nunca houve censura, nem nunca sob a nossa responsabilidade haverá censura. Mas também não haverá complacência com a falta de verdade, nem fuga às responsabilidades”, explicou a presidente, Ana Pinho.

Desde a inauguração e até domingo, a exposição dedicada a Robert Mapplethorpe recebeu perto de 6.000 visitantes, batendo recordes de público nos primeiros quatro dias, segundo fonte da instituição.

O grupo parlamentar do BE já pediu a audição de João Ribas no parlamento, o grupo parlamentar do PS requereu uma visita da comissão parlamentar de Cultura à exposição, e a câmara do Porto pediu a realização de uma reunião do Conselho de Fundadores de Serralves, com caráter de urgência.