Cidália Simões vive há mais de 40 anos na Amadora, e não admite que lhe falem mal da cidade da Grande Lisboa.

Eu  viro bicho. Aqui é a minha terra. Eu sinto a Amadora, eu quero ficar aqui até ao fim dos meus dias."

Reformada e a viver sozinha, toda a gente a conhece no bairro. No entanto, é nas amigas com quem toma café, todos os dias à mesma hora, que encontra um grande suporte.

Nós fazemos o nosso encontro, dizemos umas larachas. Sempre com muito riso, porque estamos todas sozinhas. E isto de viver sozinha é uma chatice", conta Fernanda Silva, uma das melhores amigas de Cidália à TVI.

É rir para não chorar. Isto, porque a reforma de Cidália Simões, um tempo que se previa de tranquilidade, há dez anos que é ensombrada pelo ruído causado por um armazém de frutas e legumes que se instalou no piso térreo do prédio onde vive esta mulher de 73 anos.

Nós, os condóminos, já tínhamos evitado vender a duas ou três pessoas que queriam os armazéns para negócios que não queríamos aqui. Os senhores que estão cá hoje vieram e disseram que era para guardarem vasilhame e estacionar um carro ou outro, pelo que concordámos com a venda do espaço. Só que a coisa não foi bem assim", conta Cidália Simões.

As promessas dos novos proprietários nunca chegaram a ser cumpridas, porque, em pouco tempo, o pequeno negócio virou um entra e sai de paletes de fruta e legumes, um entra e sai de trabalhadores e clientes, um entra e sai de carros, carrinhas a camiões, 24 horas por dia. Como Cidália vive no primeiro andar do edifício, o pesadelo para grande parte dos vizinhos tornou-se especialmente aterrador para esta mulher.

Como é que há um movimento debaixo da sua cabeça, toda a noite, com caixas de frutas e com pessoas a falar, e você, em cima, não ouve? É impossível!"

Por isso, muitas das noites, Cidália não consegue dormir mais do que três horas, o período do efeito dos comprimidos que toma para adormecer.

Dormir é uma função de sobrevivência. Quem dorme pouco, durante muito tempo seguido, tem dificuldades de memória, tem alterações de humor, normalmente tem níveis de irritabilidade mais elevados e tem propensão para desenvolver doenças como perturbações da ansiedade, perturbações depressivas", alerta Teresa Rebelo Pinto, psicóloga do sono.

Para além dos medicamentos, Cidália descansa com tampões de pressão. Apesar de o utensílio atenuar o ruído, não consegue resolver o problema.

O barulho, mesmo que você tenha as orelhas tapadas, sente no peito, percebe?", explica com indignação.

Sendo assim, a reformada de 73 anos não entende como é que é possível existir uma autorização para um armazém tão ruidoso funcionar 24 horas por dia, no centro de uma cidade.

O que a câmara está obrigada, no cumprimento do regulamento geral do ruído, é ir aferir se aquela atividade em concreto é compatível com o direito ao repouso das pessoas que habitam no prédio", considera a advogada Rita Garcia Pereira.

A TVI questionou o executivo municipal, e chegou à conclusão que a autarquia nunca o fez. Isto, porque considera que há um pressuposto mais relevante e que torna o armazém ilegal. É que, para além de guardar produtos, a empresa vende ao público, o que parece ser uma violação da lei. Por isso, em 2014, a autarquia ditou o encerramento do espaço, mas o tribunal de Sintra acabou, mais tarde, por anular a decisão, e a Jóia do Campo continuou, e continua, de portas abertas.

É realmente inconcebível que as autoridades deste país estejam tão adormecidas", lamenta Fernanda Silva, amiga de Cidália.

Ainda assim, a Câmara Municipal da Amadora informou a TVI de que autuou a Jóia do Campo em praticamente 4 mil euros, por ocupação indevida da via pública, multa que foi paga em novembro do ano passado. Mas, para a autarquia, o ruído sempre ficou pelo caminho, mesmo que seja aquilo que mais tem incomodado os residentes.

Admitindo que o estabelecimento tenha autorização camarária, isso não implica que os proprietários que vejam o seu direito ao repouso infringido apresentem uma ação em tribunal, que pode resultar em proibição de determinados horários, em termos de laboração, ou, no limite, no encerramento do estabelecimento", lembra a advogada Rita Garcia Pereira.

A verdade é que chegou a parecer não existir motivo para encetar uma batalha judicial que se prevê, sempre, demasiado longa. Em 2018, os proprietários do armazém de fruta enviaram uma carta aos residentes da rua a garantir que, dentro de quatro meses, abandonariam aquele local para ocuparem novas instalações numa zona industrial, na Damaia. Em bom rigor, quatro meses transformaram-se em três anos, ou seja, até aos dias de hoje.

Eles têm-nos vencido pelo cansaço. Eu já não estou bem psicologicamente. Além de usar tampões de pressão, estou a ficar surda. E o meu sistema nervoso, isto está... enfim", revela Cidália Simões.

Rita Garcia Pereira considera que Cidália deve interpor uma ação em tribunal para restringir o funcionamento do armazém e para pedir o ressarcimento dos danos que tem sofrido ao longo do tempo, por exemplo, uma conpensação por danos morais, ou seja, pela angústia, pelo stress e por ter passado a depender de medicação para dormir.

Já chega. São anos de espera. Eu gostarias muito de ver a minha mãe com essa situação resolvida", apela a filha de Cidália, que vive no Canadá, através de uma videochamada presenciada pela TVI.

Neste momento, quem pode resolver o problema da forma mais rápida são os donos do armazém e do negócio, que têm as novas instalações vazias. À TVI, apesar de recusar gravar uma entrevista, a proprietária revelou que não existe uma previsão para abandonarem o armazém que ainda usam, porque a construção do novo espaço está por terminar desde 2016. 

A conversa com a equipa de reportagem da TVI foi pacífica, mas rapidamente a diplomacia deu lugar ao absurdo. Enquanto gravávamos a fachada da empresa, a partir da via pública, a mãe da proprietária da Jóia do Campo atacou, e agrediu, à vassourada o repórter de imagem da TVI, que ficou com ferimentos no rosto.

Isto é um inferno. Eles têm de se ir embora!", conclui Cidália Simões.

O desejo é grande, a concretização parece impossível. É esperar para não desesperar: afinal de contas, Cidália e os vizinhos só querem recuperar a paz que há muito perderam.

Se também tem um problema que seja fruta a mais para a sua cabeça, não hesite e conte-nos a sua história para o e-mail aconteceaosmelhores@tvi.pt.

Emanuel Monteiro