José Correia Guedes é ex-piloto da companhia aérea TAP Air Portugal. Agora, fora do cockpit, optou por dar a conhecer o mundo insólito de quem comanda um avião.

Já publicou dois livros e prepara-se para lançar o terceiro, "Carlos Bleck", ainda este mês. Queria seguir engenharia, mas foi parar ao ramo da aviação "de paraquedas" e por lá permaneceu, durante 36 anos.

Na verdade, foi agora, já reformado, que começou a escrever as histórias que lhe marcaram a alma, para se divertir e também para ajudar todos os que têm medo de andar de avião. Encontrámos muitas na sua página no Twitter, mas quisemos ouvir mais.

“A maioria das pessoas tem medo de voar, uns mais, outros menos, mas a maioria tem, porque estão fora da zona de conforto. O meu objetivo é brincar”, explica à TVI24, antes de arrancar para uma história que todos (menos o José) achariam de terror.

Isto é um assalto

O eterno espírito otimista não o estava a fazer crer, mas era verdade: José e as duas outras pessoas que estavam no cockpit estavam a ser alvo de um assalto. “Tínhamos uma arma apontada à cabeça e o assaltante estava muito nervoso”, explicou.

Atualmente, o cockpit tem um sistema de segurança mais sofisticado, mas, aquando do sequestro, em 1980, nada disso existia. O comandante recorda que a porta era feita com uma espécie de cartolina para os pilotos conseguirem fugir em caso de emergência. O problema? Qualquer pessoa conseguia entrar.

“O rapaz trazia um rádio portátil e lá dentro a pistola, que era do pai (taxista). Entrou pelo cockpit e provocou a loucura que, durante seis horas, suspendeu o país”, contou a rir, dizendo que já na altura terá explicado ao sequestrador que a TAP estava falida.

O assalto teria tudo para correr mal, não fosse o sequestrador, que mostrou logo alguma preocupação com o bem-estar da tripulação. “Com uma pistola na mão, diz-nos: 'Os senhores desculpem o trabalho que vos estou a dar'. Isto só é possível com um português. Aí percebi que as coisas podiam correr bem”, rematou.

E realmente correu. O jovem acabou por ser detido após o avião ter aterrado em Barcelona e o "bom comportamento" valeu-lhe uma pena reduzida.

Quatro aviões da TAP convergem para o aeroporto a 400 km/h

Estávamos na década de 70. Nesta altura, Lisboa tinha pouco tráfego aéreo, o que facilitava o processo de saber quando descolava ou aterrava alguma aeronave.

No entanto, também não havia radar e, num ápice, quatro aviões da TAP convergiam para o aeroporto a 400 km/h. 

José conta que se lembra do 'Zé Manel', o controlador aéreo, se ter visto aflito e, entre “este sobe, aquele desce, o outro vai mais devagar”, gritou: “Pára tudo onde está. Vamos lá recomeçar outra vez”.

Os pilotos seguiam a 400 km/h, não dava para parar, mas tudo se resolveu. “Ele lá se acalmou e retomou as ordens”, conta com nostalgia.

Ajudar a salvar uma vida e ser-lhe apresentada a fatura

Em 2001, num dos voos de ligação do Rio de Janeiro, no Brasil, para Lisboa, passadas duas horas de voo, perto da Baía, houve um passageiro que se sentiu mal.

Um casal de médicos, que seguia no avião, confirmou que o paciente estava a sofrer um enfarte do miocárdio agudo e que precisava de ser rapidamente assistido, caso contrário podia morrer. O comandante foi imediatamente avisado e procedeu a uma aterragem de emergência.

“Correu tudo muito bem, chegou de imediato uma equipa médica e levaram-no, por recomendação da TAP, para o melhor hospital da Baía”, conta José. Mas esta história, que por si só já seria uma situação insólita, ainda só ia a meio.

Cerca de um mês depois, quando o comandante voltou ao Rio, a delegada informou-o que havia uma má notícia. José pensou que o passageiro tivesse morrido, mas afinal não. Estava bem de saúde e, depois de um mês hospitalizado, queria que o piloto pagasse a conta do hospital: 30 mil dólares.

“Quem paga é o comandante, eu estava inconsciente, não pedi nada”, terá dito o doente. A seguir, o hospital da Baía notificou a TAP e tudo se resolveu: a companhia acabou por pagar os custos sem qualquer despesa para o piloto.

Um casal a fazer sexo na Executiva

Outra história insólita que José recorda com humor aconteceu numa das muitas madrugadas que sobrevoou o Atlântico.

O ambiente estava escuro, com aquelas luzes de presença apenas, e silêncio total. José foi informado por uma assistente através do intercom que havia um casal a fazer sexo na Executiva. Este casal teve sorte nos passageiros que estavam ao lado: parece que estavam todos a dormir, ou “pelo menos fingiam”, recordou o ex-piloto.

“Pedi à assistente para os deixar e dali a 15 minutos voltar a ligar. Ela não voltou, portanto quer dizer que a coisa se resolveu”, contou.

Dar boleia a um rato americano

Numa das viagens de Nova Iorque, EUA, para Lisboa, a pouco tempo de descolar, os passageiros e tripulantes depararam-se com um rato: “grande, gordo, americano”, descreveu o comandante.

O pânico instalou-se no local, entre gritos e passageiros a querer subir para as cadeiras. Com seis ou sete horas de voo pela frente. E um rato.

Alguma coisa teria de ser feita e, por esse motivo, um comissário de bordo alertou o piloto para esta situação. Como se resolvia? Não se sabia sequer onde estava o animal.

“Olhe, eles que mantenham a calma, tenham paciência, vamos de rato para o aeroporto. E lá fomos. À chegada a Lisboa, o avião teve de ficar parado uns dias para fazer uma desinfestação”, explicou, entre risos.

FC Porto campeão europeu

Fantástico do início ao fim”. Foi assim que José começou por descrever um dos momentos mais importantes para o futebol português na Europa. Estava prestes a escrever-se história: os dragões venceram a única Liga dos Campeões com carimbo português.

Tudo começou na descolagem. José contou-nos que no Airbus seguiam mais de 300 pessoas, entre a equipa, a direção e muitos convidados. O ambiente era de festa e o comandante não fazia por menos. “Senhores passageiros, daqui fala o comandante e neste caso também o sócio do FC Porto”.  Naquele dia era mais que trabalho, estava ali também o coração portista a bater pela equipa, que acabou mesmo por vencer a partida frente ao Mónaco e ganhar a taça.

“Telefonei para Lisboa, para o piloto de serviço, para mudar o nome do avião. Nelson, faz-me um favor. Liga para o Eurocontrol (entidade em Bruxelas que coordena todo o tráfego aéreo na Europa) e pede para mudar o número do voo. Pede para ser ‘CHAMPS’ de champions (campeões)”, conta, eufórico.

O colega questionou-o se estaria sóbrio, mas José garantiu-lhe que sim, que só tinha bebido água. O pedido foi aceite e assim foi. O avião saiu com várias horas de atraso, mas a festa compensou. José só aponta uma falha: não ter conseguido sobrevoar o estádio do FC Porto devido ao nevoeiro.

Tudo a correr de feição… mas houve um ‘pormenor’ que o piloto se esqueceu de dizer quando referiu ser ‘sócio do clube’. “Esqueci-me de mencionar que não pagava quotas há 20 anos e, no fim da viagem, Pinto da Costa entra no cockpit, muito simpático, a agradecer a viagem, pede-me o meu cartão e eu, muito envergonhado, lá lhe mostro, com as quotas em atraso”, contou. Até aqui José teve sorte. Passado dois meses tinha as quotas pagas.

Apanhada a fumar com a cabeça na sanita

Num dos muitos voos ao comando de José Correia Guedes, a certa altura, disparou no cockpit o alarme do fumo de uma das casas de banho.

Uma passageira foi fumar para o WC e achou que escapava, puxando o autoclismo ao mesmo tempo. Correu mal.

“Foi apanhada nessa triste figura. Chamei um dos oficiais para ir ver o que se passava e deparou-se com a passageira com a cabeça enfiada na retrete a fumar, ao mesmo tempo que carregava no botão do autoclismo, que suga o ar, tal era o desespero”, recordou José.

A história terminou com um alerta e, ao que parece, a passageira nem se voltou a levantar do lugar durante o voo, tal foi a vergonha.