André Carvalho anda no 12.º ano, começou a organizar a viagem de finalistas em agosto do ano passado.  O rapaz de 17 anos ia uma semana para Punta Umbría, no sul de Espanha, com os amigos e colegas de turma. A data de partida estava agendada para 28 de março, logo no início das férias da Páscoa.

Em dezembro começou a falar-se do coronavírus. Fizemos uma festa para angariar dinheiro, estava muito confiante, mas em janeiro, já na escola, os meus colegas começaram a dizer que a viagem ia ser cancelada, e eu estava sempre a dizer que não, que ia na mesma, e que a minha mãe me ia deixar ir, porque era a nossa viagem de finalistas, não dava para falhar."

A verdade é que falhou mesmo, no início de março. O sonho, como quem diz a viagem, nem foi adiado, foi, fatidicamente para muitos, cancelado definitivamente.

Aí caiu-me a ficha de que, de facto, não ia, que não ia conhecer o pessoal com quem já falava há sete meses, estava tudo a desmoronar, de um dia para o outro. Perdemos a melhor semana da nossa vida, e perdemos imenso dinheiro, do nada."

Desde então, este e grande parte dos jovens e crianças do país estão fechados em casa, já lá vão, pelo menos, cinco semanas. E, atenção, não foi só a viagem de finalistas que se perdeu.

É tão complicado, porque nós queremos estar juntos, queremos estar com os nossos amigos e não podemos, e depois vemos pessoas sem noção a andar pela cidade, a ter desculpas que não se entendem para passar de concelho para concelho, e nós temos de ficar em casa.", desabafa André.

De facto, é muito tempo e muita incompreensão para quem vive a uma velocidade vertiginosa, para quem tem ganas de conquistar o mundo, para quem precisa da rua, da confusão da escola e da privacidade com os confidentes, os amigos.

Por todas estas razões, a pergunta impõe-se: até que ponto o confinamento e a pandemia vão mudar os jovens portugueses?

Ivone Patrão, psicóloga e professora no ISPA, em Lisboa, deixa claro que a resposta não é simples, mas em todas as hipóteses que se colocam, é necessário ter em consideração uma questão prévia. 

Perceber como é que a criança e o jovem estavam antes de entrar em isolamento. Como é que estava na sua condição física e psicológica? O que é que se estava a passar com esta criança e com este jovem? Havia alguma problemática prévia, alguma zona de conflito em casa ou na escola? A quarentena pode ter agravado essas situações ou pode ter esbatido o problema."

No Caso de André Carvalho, o estudante do curso de Ciências e Tecnologias não tem dúvidas de que o isolamento social tornou tudo mais difícil.

Deixei de ir correr, deixei de sair, só a minha mãe é que sai de casa, deixei de ir à escola, e isto piorou imenso a minha vida, porque a escola era uma maneira de eu fugir de algum problema que eu tivesse e, assim, se surgir alguma coisa, eu estou sempre em casa a bater no ceguinho."

Falar é importante

O confinamento pode, de facto, ser um problema para a saúde mental dos jovens e crianças. Por isso, a psicóloga entrevistada pela TVI deixa claro que a melhor ferramenta nesta altura deve começar a ser usada pelos pais, ou educadores.

Há que falar sobre o que estamos a sentir, não é só porque não tínhamos nenhum problema, estávamos numa zona de paz em casa e na escola que, face a esta situação, não podemos descompensar e não podemos sentir-nos mais ansiosos, mais tristes. É importante que a família dê espaço para que se fale sobre isto, para que cada um partilhe o que está a sentir."

Falar pode parecer simples mas, em alguns casos, será uma tarefa altamente complexa, pelo que, a par das conversas formais, deve haver espaço para a brincadeira, uma das melhores formas de exorcizar o medo, a ansiedade e a angústia.

O humor, as brincadeiras sobre si próprios, sobre os outros, por exemplo a situação do papel higiénico, que foi uma risota, mas foi uma forma de conversar. Falámos do que sentimos, do que fizemos, percebemos que não vale a pena, e é importante que as crianças e os adolescentes vão ouvindo isto."

Atenção à Internet

No topo da lista de preocupações dos pais em relação aos filhos está, também, a Internet, sobretudo porque, em muitos casos, as crianças tinham acesso limitado às ferramentas online e, de um momento para o outro, as redes sociais e as plataformas de videoconferência passaram a ser a principal forma de sobrevivência dos mais novos.

Os pais têm de estar atentos às questões do Cyberbullying: que conteúdos estão a ver, de acordo com a idade, o que é que se partilha do que é nosso, da nossa intimidade, com quem se partilha, porque, agora, até os mais pequenos estão em casa a usar o mundo online que lhes era barrado a meia hora por dia. Por não terem estrutura psicológica para gerir conflitos presenciais, podem ser alvo de perguntas, insinuações, de comentários pelos colegas com todos a assistirem"

Ivone Patrão acredita que, numa família anteriormente estável a nível emocional, o diálogo, alguma vigilância e, claro, a liberdade vão fazer com que o confinamento a que a pandemia obriga não se torne numa experiência demasiadamente traumática para os jovens portugueses, ou seja, que não mude substancialmente a sua forma de estar. 

É inevitável, procura por ajuda psicológica vai aumentar

Ainda assim, não existem nem mundos, nem famílias perfeitas, pelo que a profissional da saúde mental estima que a procura de ajuda psicológica vá crescer, a médio prazo.

Pode haver aqui um aumento, no sentido de que já havia vulnerabilidades prévias, que a quarentena veio intensificar, e se não forem criadas condições para lidar com o que já existia e com o novo impacto da quarentena, e com a questão de crianças e jovens estarem em casa a estudar sem convívio social, só convívio online, temos de perceber que alguns vão precisar de ajuda logo a seguir. Noutros, só se vai manifestar mais tarde, no regresso à normalidade anterior."

André, em Murça, onde vive desde que nasceu, continua a tentar manter-se saudável, mas tem a certeza que o feitiço se virou contra o feiticeiro: se no início dava graças a deus por ter escapado da escola, agora já só pede que a normalidade retome, e que tudo volte a ser, mais ou menos, como era antes.

Emanuel Monteiro