Rosa Grilo, a viúva do triatleta Luís Grilo, falou esta terça-feira na primeira sessão do julgamento e manteve a versão de que foi sequestrada por traficantes angolanos que executaram o marido em casa na frente dela. 

A  viúva do triatleta explicou que estava sentada de costas contra uma parede e que o marido estava ajoelhado na frente dela, com as mãos presas atrás das costas, quando foi atingido pelo primeiro tiro.

O Luís caiu para cima de mim, ele estava a respirar", garante. O triatleta terá sido depois atingido com um segundo tiro, também na cabeça, garante Rosa, ainda que a autópsia faça apenas referência a uma bala. Confrontada pela juíza com este facto, Rosa disse apenas: "Garanto-lhe que foram dois". 

Rosa Grilo insistiu ainda que o marido recebia, desde 2016, várias encomendas "estranhas" de seis em seis meses, mas só no ano passado, poucos meses antes de morrer, lhe confessou que lhe eram entregues pacotes que depois tinha de levar a outras pessoas, e que na última encomenda tinha feito "um disparate".

Os três angolanos que sequestraram o casal

Terá sido esse disparate que motivou o crime, garante a viúva, que está acusada do homicídio e profanação de cadáver do marido, bem como António Joaquim, alegado amante que, segundo a acusação, terá disparado a arma que matou Luís Grilo.

A arguida contou ao tribunal de júri que, antes das 08:00 da manhã de 16 de julho do ano passado, abriu a porta e três homens entraram na casa do casal, no concelho de Vila Franca de Xira (distrito de Lisboa), começando de imediato a agredi-la com “chapadas na cabeça" e tapando-lhe a boca.

VEJA TAMBÉM:

Luís Grilo desceu do quarto e, nesse momento, segundo a arguida, “começaram a gritar” com o seu marido, que “ficou espantado e nada disse”, apesar de a ver naquela situação. De seguida, os homens “começaram a perguntar pelas coisas deles, pelas encomendas deles”.

Eles não diziam o que eram, mas eu sabia que eram diamantes, pois eu e o Luís tínhamos falado semanas antes sobre isso”, disse, acrescentando que em abril ou março desse ano se apercebeu do “comportamento estranho, muitas vezes assustado e irritado” do marido.

Rosa Grilo contou ainda à juiz que os homicidas, dois negros e "um branco", lhe pediram sacos para embalar o corpo do marido e que saiu com dois deles para ir a casa da avó, em Benavila, para ir buscar diamantes que o marido ali teria escondidos. Foi também a mando dos traficantes que deu parte do desaparecimento do marido na GNR, mesmo tendo alegadamente, e de acordo com a versão dos factos apontada por Rosa, deixado o filho sozinho durante esse período. O facto foi assinalado pela juiz, a quem Rosa disse apenas que não pensou no filho naquela altura. 

Rosa Grilo falou durante quase duas horas, até a sessão ser interrompida para almoço, e deverá continuar a dar depoimento na parte da tarde. 

Rosa e António estão ambos visivelmente mais magros. Ele apresentou-se em Tribunal de fato escuro e manteve-se impávido, sem esboçar qualquer emoção durante toda a manhã. 

Ela mostrou-se mais confiante, à entrada na sala de audiência, vestida num elegante vestido coral. 

A viúva, que se identificou como empresária, sem rendimentos, falou ainda sobre os bilhetes para um festival de música que comprou para ir com António Joaquim, admitindo que não sabia se podia ir com ele, por causa do marido, tendo dito à juíza que não tinha com Luís Grilo uma "relação aberta". 

Já António Joaquim, que ainda não deu depoimento em tribunal, identificou-se apenas como oficial de justiça com rendimentos na ordem dos 980 euros, dizendo que vivia sozinho e tinha casa própria ainda em nome da ex-mulher, a quem paga uma pensão de alimentos na ordem dos 250 euros por mês para os filhos de 14 e 7 anos.

As primeiras impressões dos advogados 

Em declarações aos jornalistas durante a interrupção para almoço, os advogados de defesa de António Joaquim e Rosa Grilo foram parcos em palavras. A defesa de António Joaquim disse apenas que ele vai acrescentar aspetos que são relevantes e recusou comentar o testemunho de Rosa Grilo, enquanto que Tânia Reis, advogada de Rosa Grilo, disse apenas que é o Ministério Público que tem algo a provar. "O julgamento começa agora", acrescentou.

Antes do início do julgamento, nas exposições introdutórias, o procurador do Ministério Público sustentou que vai produzir toda a prova legalmente permitida ao longo do julgamento – que tem 93 testemunhas arroladas – de forma a ficarem provados os factos constantes da acusação e, dessa forma, haver condenação dos arguidos.

Os arguidos entraram na sala de audiência, completamente cheia de familiares e amigos dos arguidos e também de jornalistas, quase ao mesmo tempo, cerca das 10:10, ficando cada um a falar durante algum tempo com os respetivos advogados.

A advogada de Rosa Grilo requereu a gravação áudio e vídeo do julgamento por entender que poderá ser importante numa posterior fase de recurso, mas a presidente do coletivo de juízes explicou esta terça-feira que o tribunal “não dispõe de meios técnicos e humanos com conhecimento para efetuar a gravação vídeo”, sustentando ainda que “não está cientificamente provado que a gravação áudio e vídeo permita uma melhor apreciação dos depoimentos prestados”.

Quanto ao julgamento por um tribunal de júri (além de três juízes, foram escolhidos/nomeados quatro cidadãos), Tânia Reis admitiu que se trata de cidadãos comuns, que tiveram acesso ao processo todo, e que isso poderá ser de alguma forma prejudicial para os arguidos.