O antigo guarda-redes do Sporting Rui Patrício descreveu, esta segunda-feira, em tribunal, as agressões na academia do Sporting, em Alcochete, a 15 de maio, de 2018. O jogador, a atuar atualmente no Wolverhampton, em Inglaterra, diz que "só dava para pensar 'não nos matem'". 

Eles vinham com tudo, eu não sei se vinham para matar mas da forma que entraram...”, referiu.

Rui Patrício diz que ouviu "os barulhos dos adeptos a entrar". "Estavam aos gritos a entrar pelo balneário adentro", disse. 

Conta que estava "o plantel quase todo no balneário", porque se estavam a preparar para ir para o campo treinar. “Estávamos para aí 20 pessoas...”, recordou. 

À semelhança do que contaram outras testemunhas, Vasco Fernandes tentou fechar a porta, mas não conseguiu e os agressões entraram nas instalações, de cara tapada. 

Quando abriram a porta do balneário começaram a entrar uns atrás dos outros, entraram e começaram a agredir toda a gente, entraram com muita agressividade.”

Rui Patrício recorda ainda que os agressores entraram "começaram logo a agredir": "Mandaram logo um pontapé não consegui perceber a quem.”

Dirigiram se ao William, tentei separá-lo, mas quando eu estava a pedir calma juntaram se uns quatro à nossa frente a dizer para tirarmos a camisola, que éramos uma vergonha, não éramos merecedores. (...) Um que agrediu o William tentou agarrar-me no braço e tentou torcer. 'Estás aqui filho da p..? Queres ir embora? Parto te a boca toda!'”, explicou.

O guarda-redes contou ainda que William Carvalho foi agredido com "socos no peito”. “Havia muita confusão não dava para perceber quem estava a ser agredido, havia fumo, havia gritos”, relatou.

No exterior da ala profissional, mas ainda no interior da academia, Rui Patrício contou que viu ainda Fernando Mendes, um dos arguidos no processo e antigo líder da claque Juventude Leonina, a falar com o treinador Jorge Jesus e o jogador William Carvalho.

Após a invasão, o internacional português afirmou ter visto “Bas Dost a levar pontos na cabeça e o mister Jorge Jesus a sangrar da boca e do nariz”, quando o técnico foi ter com os jogadores ao balneário.

Jogadores sem relação com Bruno de Carvalho

O futebolista Rui Patrício revelou que “já não havia relação” com Bruno de Carvalho, após o post do jogo em Madrid a criticar o plantel, que teve como objetivo “tentar virar os adeptos contra os jogadores”.

O guarda-redes foi questionado sobre a reunião de 7 de abril de 2018, entre o plantel e Bruno de Carvalho, dois dias após a derrota com o Atlético de Madrid, e o post publicado na rede social Facebook pelo antigo presidente do clube, a criticar os jogadores.

A reunião decorreu num ambiente muito mau. Na nossa opinião ele esteve mal e queríamos que explicasse porque escreveu o post. Ele disse que era o presidente e que fazia o que quisesse. Eu e o William éramos os que estávamos a falar mais e ele respondeu: ‘vocês estão a fazer isso porque querem ir embora do clube’. Mas falamos enquanto capitães, a representar o grupo. Acabou a reunião e não se retirou nada dali”, descreveu o antigo guarda-redes ‘leonino’.

Nessa reunião, acrescentou, William Carvalho acusou Bruno de Carvalho de ordenar que elementos da claque Juventude Leonina (JL) partissem os carros dos jogadores.

O William disse que o Mustafá [arguido e líder da claque JL] lhe tinha dito que o presidente tinha mandado partir os carros dos jogadores, mas o presidente negou. Disse que se quisesse bater em alguém não precisava de ninguém. A reunião acabou, o presidente saiu, mas depois regressou com o telemóvel em alta voz com o Mustafá e perguntou: ‘diz lá se mandei partir os carros de alguém’. E o Mustafá disse que não”, contou o guarda-redes.

Para Rui Patrício, o post de Bruno de Carvalho a criticar o plantel tinha como objetivo virar os adeptos contra os jogadores, acrescentando que, desde essa reunião, nunca mais respondeu às mensagens do presidente.

O atleta esteve também na reunião na véspera do ataque à academia, entre o plantel e Bruno de Carvalho, na qual estiveram presentes outros elementos do Conselho de Administração.

A reunião decorreu em 14 de maio de 2018, no dia seguinte à derrota do Sporting contra o Marítimo por 2-1, que significou a perda do segundo lugar do campeonato para o Benfica e levou à troca de palavras entre jogadores e elementos da claque Juventude Leonina, nomeadamente envolvendo o jogador Acuña, primeiro no relvado, após o jogo, e depois no Aeroporto do Funchal.

Nesta reunião, segundo o antigo capitão do Sporting, o então presidente do clube teve um comportamento “completamente diferente e estranho” face às reuniões anteriores.

[Teve uma postura] completamente diferente. Todo o conteúdo e a forma de falar em relação às outras reuniões, ao ‘post’. Esse comportamento de Bruno de Carvalho foi estranho. Não havia relação com o presidente já. Começou a falar e uma das coisas que ele diz já no final dessa reunião foi: ‘se vocês precisarem de alguma coisa, liguem para mim ou para o Geraldes. Estou aqui para vocês, nós somos uma família, nós estamos aqui para vocês’”, contou o atleta.

Rui Patrício relatou que Bruno de Carvalho “virou-se para o Acuña” e perguntou ‘porque é que fizeste isso, agora tenho um tremendo problema para resolver, estiveram toda a noite a ligar, mas vou tentar resolver’.

O ex-capitão do Sporting contou ainda que nessa reunião Bruno de Carvalho quis saber se o plantel estava apto para jogar a final da Taça de Portugal contra o Desportivo das Aves, marcada para o domingo seguinte, 20 de maio.

O jogo foi triste ontem [contra o Marítimo], não conseguimos o objetivo, mas agora o jogo é outro, é a final da Taça [de Portugal]. Aconteça o que acontecer, vocês vão estar bem para jogar a final da Taça? Eu interpretei que iria haver mudança de treinador”, referiu Patrício.

O atleta, de 31 anos, atualmente nos ingleses do Wolverhampton, esteve no Sporting durante 18 anos, desde os 12 anos até aos 30 anos (desde o ano 2000 até junho de 2018).

Rui Patrício foi ouvido por Skype na 16.ª sessão do julgamento da invasão à academia ‘leonina’, em Alcochete, em 15 de maio de 2018, com 44 arguidos, incluindo o antigo presidente do clube Bruno de Carvalho, que decorre no Tribunal de Monsanto, em Lisboa.

O julgamento prossegue esta terça-feira com a inquirição, de manhã, do jogador Ruben Ribeiro, atualmente ao serviço do Gil Vicente, e, de tarde, do treinador Jorge Jesus, que vai testemunhar por videoconferência, a partir das 14:00, do Tribunal de Almada.

Vânia Ramos / Atualizada às 19:04