A intrusão nos sistemas informáticos do escritório de advogados PLMJ surgiu através de um email falso das Finanças, revelou esta quarta-feira o presidente do conselho de administração da sociedade, Pais Antunes, na terceira sessão do julgamento do processo Football Leaks.

Em resposta a uma questão do coletivo de juízes, Luís Pais Antunes explicou que uma das advogadas da sociedade recebeu um email das Finanças e, por precaução, remeteu-o para o técnico informático de serviço naquele dia e este acabou por abrir o email, concedendo inadvertidamente acesso aos sistemas informáticos, onde estavam guardadas as autorizações e documentos.

No prazo de 48 horas percebeu-se qual era a porta. Grande parte das autorizações estava concentrada no mesmo servidor. Soube-se mais tarde que o ‘guarda noturno’ [técnico informático] não teve a perceção do erro”, explicou o líder do escritório de advogados alegadamente alvo de intrusão por Rui Pinto, criador da plataforma Football Leaks.

Pais Antunes esclareceu que os acessos aos sistemas informáticos da PLMJ iniciaram-se em outubro de 2018, embora só tenham tido a confirmação no final de dezembro, depois de terem surgido documentos da sociedade num blogue intitulado “Mercado de Benfica” e após perícias forenses realizadas por entidades externas.

A primeira fase foi puramente interna, onde decorreu a monitorização de todos os acessos, fazendo despistagem e trancando as portas. Numa segunda fase foram contratadas equipas de empresas externas, que fizeram uma análise mais específica dos pontos fracos. Na terceira fase deu-se a entrada da empresa multinacional que fez a análise mais exaustiva”, adiantou, sublinhando: “Houve uma perícia mais sofisticada que permitiu perceber que não era um acesso pontual e que se prolongava desde outubro”.

Ao longo da manhã, o líder do escritório de advogados relativizou o impacto da intrusão nos sistemas informáticos da PLMJ, revelando que tinham sido monitorizados “centenas de ataques”, mas nenhuma intrusão externa, tendo posteriormente a sociedade dado passos no sentido de “minimizar os riscos” e reforçar a segurança.

Infelizmente, não é um facto isolado, nem é um problema de um setor específico da sociedade. Sempre houve violações de correspondência, há é uma nova forma de aceder à informação”, afirmou Pais Antunes, realçando a divulgação de informação relativa ao processo E-Toupeira, a ‘Operação Marquês’ e o processo “que envolvia o presidente da EDP, António Mexia”.

Contudo, Pais Antunes não deixou de considerar “relevante, sigilosa e nada anódina” a informação da PLMJ que foi divulgada na Internet, acrescentando não ter conhecimento de outras investigações que tenham sido iniciadas a partir dos documentos revelados.

Rui Pinto, de 31 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol e a Procuradoria-Geral da República, e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 7 de agosto, “devido à sua colaboração” com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu “sentido crítico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.

João Medeiros afirma que MP usou email roubado no processo EDP

O advogado João Medeiros, assistente no processo ‘Football Leaks’, revelou esta quarta-feira  que o Ministério Público (MP) utilizou um email no âmbito do processo EDP roubado à PLMJ.

Segundo o advogado, que tem estado a ser ouvido pelo coletivo de juízes durante esta tarde no Tribunal Central Criminal de Lisboa, o dito email surgiu citado numa nota de rodapé de uma resposta do MP a uma contestação apresentada por João Medeiros no processo das rendas excessivas da EDP.

Em causa está uma comunicação entre João Medeiros - que representa o presidente da EDP, António Mexia, e o presidente da EDP Renováveis, João Manso Neto - e o também advogado Ricardo Sá Fernandes, representante de Manuel Pinho.

O processo das rendas excessivas da EDP está há cerca de oito anos a ser investigado pelo DCIAP.

De acordo com João Medeiros, o MP só poderia ter acesso a essa comunicação a partir da divulgação da sua caixa de correio eletrónica no blogue ‘Mercado de Benfica’, depois de o sistema informático da sua antiga sociedade de advogados ter sido alvo de intrusão no final de 2018, um crime que é imputado a Rui Pinto, criador da plataforma ‘Football Leaks’.

João Medeiros viveu “sobressalto constante” na difusão de emails

 

O advogado João Medeiros, assistente no processo ‘Football Leaks’, expressou esta quinta-feira ter vivido em “sobressalto constante” durante a difusão dos emails alegadamente alvos de intrusão por Rui Pinto, criador da plataforma.

João Medeiros explicou que foram publicados nove ‘gigas’ de documentos, que corresponde a cerca de 29 mil emails, datados até 23 de dezembro de 2018, que continham informação respeitante a vários processos “’apetitosos’ a nível mediático”, como o caso EDP, os Vistos Gold, o caso das Secretas/Jorge Silva Carvalho, a Operação Marquês – que contou terem sido “vazados todos os volumes que tinha digitalizado” -, entre outros.

Foram momentos muito difíceis. Senti o meu computador completamente devassado, emails expostos, clientes a ligarem a perguntar o que se tinha passado. Eu, por aquilo ser divulgado a ‘conta-gotas’, vivia num sobressalto constante”, afirmou, considerando que “foram tempos de grande incerteza” e que, ainda hoje, não se sente tranquilo, admitindo inclusive ter recorrido aos serviços de uma psicóloga.

Apesar de o impacto da divulgação dos emails não o ter afetado do ponto de vista dos clientes, João Medeiros frisou ter sentido uma “grande repercussão” na sociedade de advogados PLMJ, para a qual trabalhava à data dos factos, que encarou “com seriedade” e onde “não se olhou a meios para tratar o assunto de forma profissional”.

Não conseguia pensar em outra coisa, estava permanentemente em ansiedade. É uma sensação de uma pessoa ser ‘desventrada’, terem entrado na nossa vida pessoal e profissional”, sublinhou, contando que os seus colegas passaram a olhar para ele como se o “culpabilizassem por isto”.

/ HCL - atualizada às 19:06