A sessão do julgamento das duas mulheres acusadas de matarem um homem no Algarve, em 2020, ficou esta sexta-feira marcada pela audição, no Tribunal de Portimão, da gravação do primeiro interrogatório de uma arguida, onde assume a autoria do crime.

O coletivo de juízes deferiu o pedido do Ministério Público, (MP) que requereu que fosse ouvida em audiência de julgamento a gravação das declarações das arguidas prestadas em primeiro interrogatório judicial “para melhor ponderação da prova”.

No depoimento ao juiz de instrução criminal, Maria Malveiro, segurança de profissão, assumiu a autoria pela morte de Diogo Gonçalves, em março de 2020, em Algoz, no concelho de Silves, e descreveu a forma como desmembrou e tentou ocultar o corpo da vítima.

Segundo a arguida, a morte terá resultado de uma “tentativa para se vingar” do jovem, colega com quem trabalhava, meses depois de este ter “forçado um contacto físico”, durante um encontro em sua casa.

Deixei claro que só queria amizade com ele e contei-lhe que namorava com a Mariana. Quis vingar-me dele, mas a minha vingança não passava por assassiná-lo”, ouviu-se na gravação.

A arguida referiu que começou “a pensar no assunto [vingança] seriamente em fevereiro de 2020”, tendo engendrado um plano que passava “por seduzi-lo e humilhá-lo”.

Queria humilhá-lo da mesma forma que ele me fez e o meu plano era seduzi-lo e amarrá-lo. Levei um medicamento que consegui através da minha namorada, com a desculpa de ter insónias. Ela não sabia do plano”, referiu.

Maria Malveiro referiu que a enfermeira Mariana Fonseca com quem tinha uma relação amorosa, desconhecia o plano por si engendrado, mas que a acompanhou à casa da vítima: “Ela não sabia de nada. Eu disse-lhe que ia a casa de um amigo que não demorava muito e ela ficou no carro a descansar porque tinha saído de serviço nessa manhã”.

A segurança contou que misturou o medicamento em sumo de laranja e que o deu a Diogo Gonçalves, pedindo-lhe depois para “fechar os olhos e sentar-se numa cadeira, onde o prendeu com abraçadeiras”.

Perante o juiz de instrução criminal, Maria Malveiro referiu que, depois de ter ido ao carro justificar a demora a Mariana, “que estava sempre a ligar”, regressou a casa da vítima e envolveu-se “numa luta”.

A Mariana entrou e comecei a sufocá-lo, queria pô-lo inconsciente porque a Mariana estava ali. Quando ficou inconsciente fiquei nervosa e a Mariana olhou para ele e disse que estava em paragem [cardiorrespiratória]. Depois, a Mariana reanimou-o e senti-me aliviada, porque não o queria matar”, indicou.

Contudo, explica, voltou a sufocá-lo quando “ele agarrou com força” o braço da Mariana: “Perdi completamente o meu bom senso e civismo e voltei a sufocá-lo porque não queria que ele a magoasse”.

Maria Malveiro assumiu que, embora a companheira tivesse conhecimento da situação, é a responsável pela morte, pelo desmembramento e pela forma como tentaram desfazer-se do corpo, dividido em sacos plásticos, largados em Tavira e em Sagres.

A segurança reconheceu também “ter cortado os dedos polegar e indicador” para aceder aos telemóveis da vítima, para responder às mensagens recebidas, ter efetuado levantamentos de dinheiro em caixas automáticas e efetuado pagamentos com os cartões da vítima, bem como ter tido conhecimento do dinheiro de uma indemnização recebida pelo jovem pela morte da mãe.

A terceira sessão do julgamento ficou também marcada pela ausência da advogada de defesa de Maria Malveiro, justificada por “motivos de doença”, fazendo-se representar por um outro advogado requerido pelo tribunal.

O julgamento prossegue durante a tarde.

/ MJC