Os taxistas parados em Lisboa, em protesto contra a entrada em vigor da lei que regula as plataformas eletrónicas de transporte de passageiros, dizem-se cansados, mas garantem que a mobilização vai continuar por tempo indeterminado.

Cerca de 1.500 táxis estão parados ao longo da Avenida da Liberdade, nos dois sentidos, desde os Restauradores até ao Campo Pequeno, pelo quarto dia consecutivo, em protesto contra a entrada em vigor, a 1 de novembro, do diploma que regula as plataformas eletrónicas de transportes.

Não somos contra as plataformas, o setor do táxi também as tem, só queremos que as regras sejam iguais”, disse à Lusa, no local, José Domingos, membro da direção da ANTRAL (Associação Nacional dos Transportes Rodoviários em Veículos Ligeiros).

Na sexta-feira, o processo teve um desenvolvimento, com o PCP a pedir a revogação da lei, uma decisão que os taxistas consideram estar no “caminho correto”, mas que ainda não é suficiente.

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Inicialmente, os representantes dos taxistas exigiam que os partidos fizessem, junto do Tribunal Constitucional, um pedido de fiscalização sucessiva da constitucionalidade do diploma, uma exigência que não foi acolhida pelos grupos parlamentares.

A proposta do PCP é o que queremos, mas sozinha vale pouco. Queremos que partidos com assento parlamentar apoiem, para que a proposta passe”, afirmou, manifestando esperança no PSD, que “já meteu um requerimento para ouvir o ministro [do Ambiente] com caráter de urgência”.

Até terem uma garantia concreta de que diploma será revogado ou pelo menos alterado, os taxistas prometem manter-se em protesto, com os táxis parados, por “tempo indeterminado”.

O que queremos é que seja revogada, mas pelo menos suspensa ou alterada antes da entrada em vigor”, disse esclarecendo que a alteração que exigem tem a ver com os “contingentes”: “É inadmissível que na cidade de Lisboa haja 3.580 táxis e os UBER calculam-se já em perto de 5.000”.

José Domingos sublinhou que “há uma pessoa que se quiser resolve o problema e essa pessoa chama-se António Costa”, referindo-se ao primeiro-ministro.

“Infelizmente está em silêncio, assim como o presidente da Câmara de Lisboa. Já pedimos duas vezes para falar com ele, mas nada”, lamentou, garantindo por isso que a “luta vai continuar”.

Isto apesar de um cansaço que os taxistas confessam começar a pesar e a dar lugar ao “desespero”.

Um grupo de taxistas, em conversa hoje com a Lusa, afirmava que estava na Avenida da Liberdade a viver praticamente dentro do carro, desde o primeiro dia.

Alguns ainda vão a casa tomar um banho e ver a família, mas outros garantem que dali não arredam pé.

Ao logo da Avenida da Liberdade, fileiras de táxis parados junto às bermas, nos dois sentidos, eram guardados por taxistas que se juntam em grupos, a conversar e a reclamar contra os colegas que “furam” o protesto e continuam a fazer serviços.

A meio da manhã, os ânimos exaltaram-se quando dois taxistas de Oeiras se aproximaram de um grupo de taxistas de Lisboa que os acusaram de estar a boicotar o seu protesto, porque continuam a fazer alguns serviços.

José Domingos lamenta este comportamento de alguns colegas e recusa-se a falar em serviços mínimos: “Não há serviços mínimos, os que andam a trabalhar, é de lamentar, a luta é de todos e se conseguirmos alguma coisa eles também vão beneficiar e não estavam aqui, como eu estou há quatro dias”.

O responsável da ANTRAL esclareceu que o único serviço de táxis que se mantém oficialmente em funcionamento é um serviço de transporte especial “só no aeroporto, para pessoas com mobilidade reduzida, grávidas e crianças, a custo zero”.

Entre as centenas de táxis ao longo da avenida transformados em casas provisórias, até uma tenda foi montada para um grupo “mais radical”, como lhe chamam alguns taxistas.

Os táxis parados ostentavam bandeiras brancas e vermelhas com as frases “proibido ilegais” e “#somostáxi”, esta última uma expressão reproduzida em t-shirts pretas envergadas por muitos dos protestantes.

A polícia de transito e de segurança pública percorria a avenida, em vigilância, e rapidamente circundou um UBER que parou nos Restauradores, junto aos táxis, naquilo que os taxistas consideraram ser uma “provocação”, obrigando-o a abandonar o local.

Taxistas de Sintra no Porto a apoiar protesto com vuvuzelas

Um grupo de taxistas oriundos de Sintra deslocou-se hoje até ao Porto para “apoiar e mostrar que o setor está mais unido do que nunca”, introduzindo o barulho das vuvuzelas no protesto, o que gerou descontentamentos.

Cheguei hoje, sou de Sintra. Decidi dar apoio aos meus colegas e trouxe as vuvuzelas para fazer barulho”, disse um dos taxistas em declarações à Lusa.

Quando confrontado com o facto de muitos dos profissionais que há quatro dias se mantêm na Avenida dos Aliados se terem manifestado, em declarações à Lusa, desagradados com a novidade das vuvuzelas, o mesmo taxista respondeu: “Isso é um problema que é deles. Os meus colegas que estão aqui têm todos vuvuzelas e estão com a gente”.

“Isto só vem é desmobilizar quem cá está, porque os afetados somos nós. Espero que o bom senso venha a imperar e que estas gaitas se calem”, disse o vice-presidente da Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros de Passageiros (ANTRAL), José Monteiro.

Frisou que “os grandes afetados são aquelas pessoas que há três dias estão a dormir nas viaturas, que estão exaustos, mas que estavam dispostos a permanecer pelo tempo necessário”.

A continuar este clima, muito provavelmente levará à desmobilização de quem cá está e não se identifica com este tipo de comportamento. Queremos uma manifestação cívica, ordeira e que cause o mínimo impacto à população e à envolvente desta praça. Eles podem apoiar, mas não temos o direito de interferir na qualidade de vida das pessoas”, acrescentou.

Também Carlos Lima, da Federação de Táxis do Porto, se mostrou desagradado com o “clima de destabilização” gerado com a chegada do grupo de taxistas de Sintra, que acabou por abandonar a Avenida dos Aliados cerca das 11:15, aplaudido por alguns dos profissionais que defendem outro tipo de protesto que não o delineado pelos dirigentes associativos.

De acordo com Carlos Lima, para a tarde de hoje e para domingo “não faltará animação”, que já foi autorizada pelo presidente da Câmara do Porto.

“Haverá muita música, comes e bebes e a atuação de grupos de concertinas”, disse o responsável.

Todos os taxistas ouvidos hoje pela Lusa no Porto se mostraram dispostos a permanecer na Avenida dos Aliados pelo tempo que for considerado necessário. Hoje o protesto reuniu mais de 400 viaturas.

Taxistas de Faro determinados a continuar protesto apesar do calor

Os taxistas que estão parados há vários dias acesso ao aeroporto de Faro dizem-se motivados para continuar o protesto, mesmo sob um sol abrasador como o de hoje.

Às 11:00 de hoje, quando as previsões meteorológicas apontavam para uma subida da temperatura até perto dos 40 graus centígrados durante o fim-de-semana, os participantes no protesto já tentavam proteger-se como podiam do sol, num momento em que o termómetro já tinha chegado aos 35 graus.

Na Estrada Nacional 125/10, perto da rotunda do aeroporto de Faro, onde cerca de 200 táxis estão parados, as sombras escasseiam. Mas a solidariedade entre a classe permite que uns vão ajudando outros e se desloquem alternadamente a supermercados para levar bebidas e alimentos para a zona ou que se vão revezando junto aos táxis, enquanto os colegas vão a casa tomar um banho e descansar um pouco.

João Ramos, taxista em Albufeira, estava hoje com um colega à sombra de um porta-bagagens aberto e destacou, em declarações à agência Lusa, a resiliência dos profissionais do setor, que se mantêm em protesto desde quarta-feira de manhã.

Este carro está aqui há mais de 72 horas. E nós vamos resistindo, com umas águas frescas, tentando encontrar sombras e passando o tempo da melhor forma que conseguimos”, contou, enquanto alguns colegas se deitavam no chão à sombra dos carros e outros se protegiam do sol com sombrinhas de praia colocadas entre dois automóveis.

Leonel Sequeira trabalha como taxista há 34 anos e disse à Lusa que este protesto no Algarve, que segundo os organizadores chegou já a contar com cerca de 270 automóveis, é o maior que viu em todos os anos de profissão.

“Há uns anos também fizemos um, que foi uma marcha entre o aeroporto e Faro, mas não teve tanta gente a participar como este”, disse.

Analídio Inácio chegou hoje ao local do protesto transportando uma geleira às costas, acompanhado por outros taxistas que levavam sombras, cadeiras e uma mesa.

“Trago aqui mantimentos para aguentarmos umas horas. Juntámo-nos uns quantos, formos ao supermercado e enchemos a geleira e trouxemos uma sandes para o pessoal comer qualquer coisa”, contou.

Taxistas mantêm protesto até serem recebidos pelo Governo

Os taxistas continuam hoje parados, pelo quarto dia consecutivo, e determinados a manter o seu protesto até serem recebidos pelo Governo, disse hoje Florêncio Almeida, da Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros de Passageiros (ANTRAL).

“Os táxis estão parados (em Lisboa) na avenida da Liberdade, na avenida Fontes Pereira de Melo e vão até Entrecampos. Cerca de 1.500 táxis estão parados em Lisboa, mais 800 no Porto e 350 em Faro”, declarou Florência Almeida à agência Lusa, fazendo um ponto da situação no país.

Segundo o responsável da ANTRAL, a determinação dos taxistas é de continuarem paralisados “até que o Governo se digne a receber os representantes dos táxis” e “chegar a um consenso”.

“Caso contrário, a nossa determinação é continuar por tempo indeterminado e, se calhar, com outras ações que se vão decidir entre hoje e amanhã (domingo)”, afirmou Almeida.

“A nossa intenção é mantermos a nossa tranquilidade, o nosso civismo e demonstrar que afinal nós somos pessoas de bem e que estamos a defender os interesses (do setor) dos táxis”, acrescentou Almeida.