O homem acusado do homicídio qualificado da namorada, em dezembro de 2019 na cidade de Leiria, negou nesta terça-feira, em tribunal, a intenção de matar e declarou-se arrependido.

“Não tinha intenção [de matar]”, afirmou o arguido, garantindo que “gostava muito dela” e que “não queria que ela” o deixasse, como a vítima “tinha dito” que faria.

O suspeito, de 35 anos, começou hoje a ser julgado no Tribunal Judicial de Leiria.

Segundo o despacho de acusação, o arguido, que se encontra em prisão preventiva, mantinha uma relação amorosa com a vítima, com quem habitava, juntamente com os filhos desta, de dois e seis anos.

O Ministério Público (MP) relata que, ao final da tarde do dia 27 de dezembro de 2019, o casal iniciou uma discussão, tendo, “no decurso da mesma, entrado na casa de banho” da habitação.

“Encontrando-se a ofendida junto da banheira, de costas para o arguido, este, apanhando-a desprevenida”, terá desferido com um x-ato três golpes no pescoço da vítima, provocando-lhe várias lesões e “abundante sangramento e projeção sanguínea”.

O arguido abandonou o local no seu veículo, deixando a vítima a sangrar sem qualquer assistência, lê-se no despacho.

O MP refere que a mulher ainda conseguiu, sozinha e a sangrar, arrastar-se “até à sala, onde veio a tombar em cima do sofá”, morrendo na presença dos filhos.

“Com medo”, as crianças “esconderam-se debaixo de umas prateleiras na cozinha, ficando sozinhas com o cadáver da mãe no interior do apartamento, até às 20:34”, quando a PSP ali acorreu.

Perante o coletivo de juízes, o arguido confirmou a discussão, mas disse não se lembrar totalmente do motivo.

Ela estava no quarto e começou a ligar para a minha mãe, que estava no Brasil. Pedi para não falar para a minha mãe”, declarou, referindo que depois a vítima foi “para a casa de banho e continuou a falar” com aquela.

O arguido disse ainda que, ao ver se estava tudo bem com as suas ferramentas, pegou no x-ato.

“Foi quando perdi a cabeça”, assumiu ao tribunal, reconhecendo que golpeou a vítima, que estava de frente, duas vezes no pescoço.

“Não tenho explicação para isso. Foi uma coisa que não sei explicar. Sempre vivi tranquilo e calmo”, frisou, adiantando que levou a vítima até ao sofá.

Às crianças transmitiu depois que ia “chamar socorro”, tendo procurado na internet o contacto da PSP, à qual telefonou.

“Liguei para falar o que aconteceu (…). Liguei e informei para eles irem para o apartamento que ela estava sozinha com as crianças”, acrescentou o acusado, esclarecendo que viu sangue e, que face ao desespero, saiu e foi em direção a Pombal, onde sofreu um acidente e acabou detido.

Afirmando-se arrependido, o arguido, que tem dois filhos menores no Brasil, reconheceu que fez “mal a uma pessoa de quem gostava muito”.

O tribunal ouviu diversas testemunhas e as declarações para memória futura do filho mais velho da vítima, quem abriu a porta de casa aos agentes da PSP.

Nas alegações finais, o procurador da República considerou provados todos os factos da acusação, assinalando a confissão do arguido, e pediu que seja feita justiça, atendendo igualmente às atenuantes.

Já a advogada de defesa salientou que o crime não foi premeditado e que o arguido, pessoa pacata e sem antecedentes criminais, “arrependeu-se de imediato” e, embora tenha saído do local, pediu ajuda.

A advogada considerou que o suspeito deve ser condenado pelo “mínimo legal”.

A leitura do acórdão está prevista para 4 de dezembro, às 14:00.

/ CM