O curso 127 dos Comandos não foi o primeiro em que instruendos tiveram de ser assistidos durante a "Prova Zero". No decorrer do 125º curso dos Comandos, que decorreu entre 28 de setembro e 1 de outubro de 2015 em Alcochete, nove instruendos foram internados no Hospital das Forças Armadas, mas houve um que suscitou maior atenção: o soldado Brito que sofreu de desorientação, alucinações e perda de sentidos. 

O despacho a que a TVI24 teve acesso data de 1 de dezembro de 2015. Há cerca de um ano decorria um processo de averiguações para apurar porque tinham sido internados no Hospital das Forças Armadas, nove dos instruendos e analisava ainda o que tinha ocorrido com o soldado Brito.

De acordo com o documento, um dos responsáveis pela instrução relatou que, no dia 29 de setembro, "cerca das 13:30, em Alcochete, quando distribuía água aos instruendos (…) o soldado Brito estava «perturbado e desorientado e alegava estar perdido (…) pouco tempo depois nem conseguia andar»".

Apesar da desorientação inicial, o instruendo terá recuperado do seu estado pois um outro responsável pela instrução refere que "cerca das 18:00 encontrou o soldado Brito desorientado e deitado no chão" durante a prova de marcha e corrida. 

Mas, no dia seguinte, os sintomas continuaram. Segundo o despacho, o testemunho de um outro responsável dá conta que "no dia 30 de setembro de 2015, cerca das 8:00, recorda-se de ter visto o soldado Brito desorientado e a ser conduzido para o posto de socorros (…)"

Este mesmo responsável afirmou ainda que "no mesmo dia verificou que a temperatura ambiente tinha aumentado e em coordenação com o comandante da companhia de formação decidiu-se aumentar a quantidade de água por instruendo, passando dos três para os cinco cantis por dia a cada um dos instruendos".

Esta medida aconteceu apenas um dia depois de surgirem os primeiros sintomas nos instruendos.

Miguel Domingues, o médico constituído arguido no caso das duas mortes do curso de Comandos 127, também era o médico responsável neste curso de 2015.  Nas suas declarações que constam do despacho afirma que, em relação aos instruendos internados, "verificou-se que apresentavam um conjunto de fatores que deram origem ao sucedido, não existindo nenhum momento ou causa concreta que justificassem per si as manifestações clínicas das doenças apresentadas", acrescentando que foram todos assistidos e tratados no local e que encaminhou para o hospital os que não melhoraram.

No entanto, o soldado Brito, que também apresentava lesões num joelho, deu entrada no Hospital das Forças Armadas apenas a 2 de outubro e a família só ficou a saber do seu internamento dias depois. 

Sem informações por parte dos Comandos, a mãe do soldado viaja para Portugal e a 6 de outubro, mandatado pela família, um advogado questiona por email as razões para as lesões no joelho e refere que o soldado Brito se encontra nos cuidados intensivos ligado a ventilador e com insuficiência renal, pois estava a ser sujeito a hemodiálise.

Apesar de referida pelo magistrado, esta situação clínica que nunca aparece referida no processo de averiguações. 

O despacho mandou arquivar o processo, referindo que não houve uma causa específica para os internamentos, considerando que "o número de instruendos afastados enquadra-se no valor aceitável devido à especificidade e exigência do exercício em questão".

Quanto aos instruendos Tiago Vicente, Diogo Matado, Pedro Soares, Ricardo Valério, Diogo Branco, Tiago Almeida e João de Almeida, o processo refere que "foram internados por motivos diversos" e que "não existe uma causa específica, mas sim um conjunto de fatores que levaram ao internamento/hospitalização dos referidos instruendos".

No momento em que são evacuados para o Hospital das Forças Armadas, já apresentavam mazelas tais como cotovelo/joelho doridos e inchados ou noutros casos perda de sentidos. Os instruendos quando questionados, não se recordam da circunstância exata que dá origem ao internamento/hospitalização. Todos apontam como fatores que contribuíram para o sucedido, o esforço físico/desgaste continuado e o choque do cotovelo/joelho no chão".

A TVI24 está a tentar acompanhar em que situação se encontra o processo.

O 127.º curso de Comandos, marcado pela morte de dois militares - Hugo Abreu e Dylan da Silva -, terminou na sexta-feira com 14 formandos excluídos por razões médicas, uma tendência que tem aumentado nos últimos anos.

O 127.º curso registou ainda o maior número de desistências dos quatro últimos cursos, com 27 dos 67 candidatos iniciais a decidirem voluntariamente abandonar a formação.

O número de desistências do curso, está numa escala que se não se verificava desde 2013, quando houve 34 desistências num total de 108 formandos, e no ano anterior, quando 29 saíram do curso, iniciado por 118 alunos.

O Exército abriu três inquéritos disciplinares e uma inspeção técnica extraordinária sobre os referenciais do curso e o respetivo processo de seleção. Na sexta-feira, a TVI24 teve acesso ao despacho da juíza de instrução que vai em sentido contrário ao da investigação do Ministério Público e da PJ Militar, que imputava mais crimes - e de natureza militar - a mais arguidos, nomeadamente as ofensas à integridade física agravadas, relativas a cinco instruendos.