A escritora Dulce Maria Cardoso alertou em Óbidos para a curta distância entre o “politicamente correto” e o “politicamente ridículo”, numa era em que o "policiamento da linguagem" tornou tudo o que se diz ofensivo.

“A linguagem carrega preconceito”, afirmou a escritora para quem “o policiamento da linguagem não é eficaz” e faz com que facilmente se passe do “politicamente correto” ao “politicamente ridículo”, quando “tudo [o que se diz] passou a ser ofensivo”.

À conversa com Ricardo Araújo Pereira, numa mesa sobre “Liberdade de expressão”, Dulce Maria Cardoso vincou a necessidade de defender a liberdade de expressão, que só deve ser restringida quando “a palavra implicar dano”, mas criticou a tendência para se “reagir desproporcionalmente em situações sem sentido nenhum”.

Recorrendo a antigos provérbios como “matar dois coelhos com uma cajadada” ou ter “um olho no burro outro no cigano”, a escritora desvalorizou que quem usa estas expressões as refira “no seu verdadeiro sentido”, alertando para o perigo de que, em nome do “politicamente correto, se extravase para a proibição de livros, ou filmes”, por se considerar que a sua linguagem possa ser “racista ou homofóbica”.

As pessoas acham que mudando a designação a realidade se altera”, disse, por seu lado, Ricardo Araújo Pereira, para defender que mais do que lutar pela igualdade de tratamento ao nível do discurso, há que fazer a tónica recair “na desigualdade social” que verdadeiramente gera as diferenças de tratamento entre pessoas.

Na conversa não faltaram críticas a André Ventura, com quem o humorista faz sempre “questão de gozar”, aos negacionismos, ou aos partidos de esquerda que têm deixado “a extrema-direita tomar conta das redes sociais” e através delas difundir “um discurso panfletista”.

Num discurso mais sério do que aquele a que tem habituado o público do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, Ricardo Araújo Pereira voltou a protagonizar uma das mesas de autores mais concorridas, com dezenas de pessoas concentradas no exterior da tenda onde a lotação [de 150 pessoas] esgotou mais de uma hora antes do evento.

Palco de lançamentos de livros, debates, mesas redondas, entrevistas, sessões de autógrafos e conversas, entre escritores e leitores, o Folio teve a sua primeira edição em 2015.

Depois de em 2020 não se ter realizado devido à pandemia de covid-19 o festival voltou este ano a realizar-se na vila onde 175 autores e escritores participam na edição que tem como tema “O outro”.

O evento marca o regresso dos eventos presenciais em Óbidos com a realização de mais de 160 atividades previstas no programa que integra 16 mesas de autor e debates no Folio Autores, 35 iniciativas no Folio Educa, 75 eventos do Folio Mais, Banda Desenhada e Folio Ilustra, 23 concertos e 12 exposições.

/ HCL