A manifestação pelo clima que juntou centenas de jovens em Lisboa terminou cerca das 19:00 no centro da capital com apelos a novas políticas pelo ambiente e promessas de novas iniciativas.

Os manifestantes, na esmagadora maioria jovens, percorreram a Avenida da Liberdade, sempre com palavras de ordem como “justiça climática já” ou a já entoada noutras manifestações “não há planeta b”.

Criadas inicialmente pela jovem ativista sueca Greta Thunberg, que iniciou sozinha uma greve às aulas às sextas-feiras exigindo medidas para combater as alterações climáticas, este tipo de ações tornou-se comum e hoje decorreram de novo em vários países e em várias cidades de Portugal.

Em Lisboa, os organizadores optaram por uma marcha, com uma profusão de cartazes, desde um pequeno escrito em inglês e também transportado por uma menina onde se lia “you´re gonna kill us all”, a grandes faixas contra um acordo entre a União Europeia e o Mercosul, mercado comum de vários países da América do Sul, incluindo o Brasil.

O acordo foi considerado por manifestantes de servir para provocar o desmatamento da Amazónia, e nas intervenções finais o primeiro-ministro português, António Costa, foi desafiado a dizer “se está com a Amazónia ou se está com Bolsonaro” (Presidente do Brasil).

Nas intervenções do final da marcha os jovens pediram também empenho no corte de 50% de emissões de gases com efeito de estufa até 2030, a requalificação dos profissionais que vão perder empregos dos setores poluentes ou a proibição de “expansões portuárias e aeroportuárias”, entre outras medidas, como a de tornar obrigatório nas escolas o estudo das alterações climáticas e da ecologia. E anunciaram outras ações de defesa do clima, já em outubro.

Na base das ações de hoje em Portugal estiveram organizadores que fazem parte do movimento criado por Greta Thunberg, tendo-se juntado aos jovens elementos de organizações ligadas ao ambiente e deputados de pelo menos quatro partidos (Iniciativa Liberal, Verdes, Bloco de Esquerda e Pessoas, Animais, Natureza).

Também presentes e com uma ação paralela elementos do movimento “Parents For Future”, pais e mães igualmente inspirados no movimento criado por Greta Thunberg.

Na Praça dos Restauradores, não longe do local onde terminou a marcha (Rossio), o movimento de pais e mães colocou centenas de sapatos no chão, também para chamar a atenção para a “emergência climática”.

Grito de ajuda junta jovens e outros representados por pares de sapatos no Porto

Cerca de 40 jovens concentraram-se na Avenida dos Aliados, no Porto, para “pedir ajuda a salvar o planeta” e, devido às regras impostas pela pandemia, outros tantos se fizeram representar por pares de sapatos espalhados pelo chão.

De todos os tamanhos, géneros e cores, cada par de sapatos, sapatilhas, sandálias ou botas representava uma pessoa e tinha, no seu interior, uma flor e uma mensagem que, embora escrita ou ilustrada de maneira diferente, lembrava o mesmo: “não há planeta B”.

Rodeada de mensagens onde se lia “o planeta precisa de ajuda”, “se o planeta fosse um banco já o tinham resgatado” ou “não podemos ficar parados”, Ana Luísa Duarte disse à agência Lusa que a pandemia da covid-19 provocou um “clique” nas pessoas para as questões ambientais, mas ainda insuficiente para as necessidades existentes.

Considerando ser urgente uma maior ação e mobilização pelo clima quer por parte do Governo, da comunidade e em termos individuais, Ana Luísa Duarte considerou que é “preciso mais consciencialização” para o problema que é “muito grave”.

Todos temos de mudar os nossos comportamentos, é imperativo”, vincou.

Enquanto se ouvia música de fundo sob as palavras “a nossa luta é pela água, floresta e energia”, Gabriela Gomes, de 15 anos, referiu que o mundo está num “caminho muito acelerado para o colapso ambiental”.

Apesar de criticar a “inação governamental” nesta matéria, a jovem lembrava, contudo, que o comportamento individual é o que vai salvar o planeta, pedindo “mais ação e sensibilização”.

Da sua parte já está a contribuir “um pouco” para o futuro de todos ao andar de transportes públicos, não comer carne ou poupar água e luz em casa nas suas tarefas diárias, contou.

Apesar da máscara e do distanciamento social, comportamento que pautou esta concentração, Miguel Silveira ia fazendo ouvir-se pelo megafone que empunhava.

Temos um longo caminho a percorrer, temos o futuro em risco por causa de comportamentos passados negligentes”, afirmou.

O jovem de 14 anos, que tem uma dieta vegetariana e vai a pé para a escola, assumiu que vai conseguindo mudar alguns comportamentos em casa, mas “muito devagarinho”.

Apesar de dizer que pais, avós e tios ainda têm dificuldades em mudar certos hábitos, Miguel Silveira acredita que, cada vez mais, estes vão ganhando consciência para a “dimensão do problema”.

Criadas inicialmente pela jovem ativista sueca Greta Thunberg, que iniciou sozinha uma greve às aulas às sextas-feiras exigindo medidas para combater as alterações climáticas, este tipo de ações, as chamadas greves climáticas estudantis, acontecem no mundo inteiro e também em Portugal.

Coimbra na rua para manter o ambiente na agenda

Um grupo de jovens manifestou-se em Coimbra, numa ação integrada na "mobilização climática global", para garantir que o clima não sai da agenda política, mesmo em contexto de pandemia de covid-19.

Cerca de 30 a 40 jovens, com máscaras e distanciados entre si, concentraram-se no Jardim Botânico e seguiram até à Praça 8 de Maio, gritando palavras de ordem como "Não há planeta B" e "Mudem o sistema, não mudem o clima".

Nos cartazes e tarjas que envergavam, podia-se ler "O Capitalismo não é verde", "Portugal sem furos" ou "Não à mina, Sim à vida".

A situação da covid-19 é um facto, mas as alterações climáticas são uma agenda de todos nós. É extremamente urgente falar desta causa, com ou sem covid-19, porque está presente no nosso dia-a-dia e estará presente nas nossas vidas futuras", afirmou à agência Lusa um dos organizadores da ação de Coimbra Cláudio Estrela.

Para o jovem estudante na Universidade de Coimbra, é "extremamente essencial" o regresso às manifestações, por forma a mostrar que os jovens "voltaram à rua".

A urgência deste assunto é muito grande. Não nos podemos esquecer das alterações climáticas, mesmo com esta situação de pandemia", vincou, considerando que as diferentes manifestações que ocorreram um pouco por todo o país também servem para garantir que as alterações climáticas não saiam da agenda do Governo.

Cláudio Estrela vincou que este tema "tem que ser uma prioridade para os governantes, em tempo de pandemia ou não".

Jovens de Évora dizem que crise climática pode ser mais prejudicial que covid-19

Um grupo de jovens concentrou-se em Évora, junto ao Templo Romano, para alertar para as consequências das alterações climáticas e avisou que no futuro podem ser "mais prejudiciais" do que a pandemia de covid-19.

Integrada na "mobilização climática global", a iniciativa arrancou com sete jovens, todos de máscara de proteção, a colorarem cerca de uma dezena de cartazes na estrutura metálica que delimita a área do Templo Romano.

"Por uma transição climática justa", "A terra esgotou a sua paciência e nós também", "Eco>Ego" e "Keep the earth clean (Mantenha a terra limpa)" eram as frases de alguns dos cartazes de papelão e pano afixados na estrutura.

Linda Assunção, de 17 anos, aluna da Escola Secundária André de Gouveia, afirmou à agência Lusa que a concentração pretendeu mostrar que, apesar da pandemia de covid-19, os jovens não se esqueceram do problema das alterações climáticas.

Foi também, acrescentou, "uma forma de afirmar, sobretudo para o Governo, que no futuro as alterações climáticas serão mais prejudiciais que a própria pandemia" de covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2.

Também em declarações à Lusa, João Fanha, de 18 anos, que aguarda informação sobre o ingresso no ensino superior, sublinhou que se trata de "uma manifestação mais simbólica", dado "o recente surto na cidade e o aconselhamento da Câmara de Évora".

Mas queremos que os cartazes expostos representem o número de participantes que cá estariam", disse, vincando que os jovens não podiam "deixar passar" a luta climática que "têm vindo travar", apesar da pandemia.

João Fanha advertiu que, devido à covid-19, os governantes "pensam muito em recuperar a economia a todo o custo e esquecem-se das questões ambientais", lamentando que se esteja a "voltar ao descartável, sem olhar ao ambiente".

Durante a concentração, o grupo de jovens de Évora realizou vários diretos para as redes sociais.

Protestos também lá fora

A jovem sueca Greta Thunberg continua a ser o principal rosto, mas milhares estiveram na rua pelo mesmo objetivo de exigir medidas para combater as alterações climáticas em mais de 3.000 protestos pelo mundo.

A partir de Estocolmo, onde encabeçou uma manifestação com dezenas de outros jovens em frente ao parlamento sueco, Greta Thunberg declarou que o movimento de protesto “Fridays for Future” quer “aumentar a pressão sobre quem tem o poder” até que algo mude nas orientações dos países sobre combustíveis fósseis, energias e outros fatores determinantes no combate às alterações climáticas.

Em Berlim, capital da Alemanha, milhares de jovens estiveram junto à Porta de Brandeburgo apesar da chuva, enquanto um cortejo de ciclistas ligou a principal estação de comboios à baixa da cidade.

Num contexto de restrições a grandes concentrações de pessoas, a polícia diz que foram 10.000, mas a organização refere mais do dobro, apontando para 21.000, com mensagens como “não me queimem o futuro”.

Frankfurt, Bona e Colónia foram palco de outras manifestações de jovens pelo clima, num total de 450 iniciativas realizadas em cidades da maior economia europeia, em que uma das mensagens foi de crítica ao governo de Angela Merkel, que pretende continuar a explorar minas de carvão por mais quase 20 anos.

Ao lado, na Áustria, vários milhares juntaram-se na capital, Viena, numa mobilização que resistiu à chuva e em que a organização promoveu o distanciamento físico entre as pessoas.

No regresso à rua depois de meses de confinamentos e restrições de movimentos, a sexta-feira de protesto foi também assinalada na Escócia, em Edimburgo, em números mais pequenos, com dezenas de estudantes universitários e da secundária em frente ao parlamento escocês.

Em Bruxelas, capital das instituições europeias, uma centena de pessoas reuniu-se no centro da cidade para marcar o dia das “Sextas-feiras pelo futuro”, apesar das restrições às concentrações que vigoram na Bélgica.

Fora da Europa, milhares marcaram presença em países como a Austrália, Coreia do Sul, Índia ou Japão, apelando para que a assembleia-geral da ONU, que decorre até dia 30, adote medidas urgentes para permitir o cumprimento do Acordo de Paris, para limitar o aumento da temperatura global.

Nas cidades australianas de Sydney, Melbourne e Perth, grupos pequenos de manifestantes exigiram ao seu governo a transição do país para fontes de energia 100 por cento renováveis até 2030 e criticaram a opção pelo financiamento de combustíveis fósseis, que mobilizam o equivalente a cerca de 7,2 mil milhões de euros da receita fiscal australiana.

Na capital japonesa, Tóquio, os jovens da ‘Fridays for Future’ deixaram dezenas de sapatos no chão em frente ao edifício do parlamento com mensagens apelando para ação urgente, uma opção tomada para evitar concentrações de pessoas, ao mesmo tempo que promoveram petições na Internet contra os combustíveis fósseis.

Os manifestantes na Índia, país com o segundo maior número de casos de covid-19 (5,8 milhões) também apostaram em iniciativas ‘online’, como seminários sobre as alterações climáticas, no dia em que o governo indiano e a União Europeia anunciaram cinco projetos comuns no setor das energias “limpas”.

Longe de tudo mas no centro do problema, uma única manifestante, a jovem britânica Mya-Rose Craig, tinha marcado no domingo a sua posição ao colocar-se sobre um pedaço de gelo que se separou da calota polar, a norte das ilhas Svalbard, na Noruega.

/ AG