Mais de 2.500 vítimas de violência doméstica já recorreram ao Espaço Júlia, que abriu portas em Lisboa há quatro anos e se revelou uma "caixa de pandora", disse à Lusa o autarca da Freguesia de Santo António.

Inaugurado no dia 24 de julho de 2015, o Espaço Júlia - RIAV (Resposta Integrada de Apoio à Vítima), funciona na Alameda de Santo António dos Capuchos, oferecendo um atendimento permanente especializado feito por técnicos de apoio à vítima da Freguesia de Santo António e agentes da PSP, em parceria com o Centro Hospitalar de Lisboa Central.

Só nos primeiros meses de funcionamento, o espaço atendeu mais de 200 pessoas, e agora, passados quatro anos, esse número ascende a mais de 2.500 vítimas.

Fazendo um balanço à agência Lusa destes quatro anos, o presidente da Junta de Freguesia de Santo António, Vasco Morgado, afirmou que, "infelizmente, é positivo".

É um espaço que continua com muito serviço, com muito trabalho, cada vez mais", disse o autarca, contando que quando o espaço abriu o seu discurso era que estaria "contente quando ele deixasse de ser necessário e tivesse de o fechar".

Mas "infelizmente não se vislumbra essa situação", disse.

Situado junto à entrada do Hospital Santo António dos Capuchos, o equipamento social abrange as quatro freguesias envolventes: Arroios, Santo António, Santa Maria Maior e Misericórdia.

Mas o que se está a verificar é um aumento do número de pessoas oriundas de outras freguesias de Lisboa e até de outras regiões do país. "Já tivemos gente de Braga e dos Açores a vir apresentar queixa ao Espaço Júlia porque viram na televisão", contou.

Ao Espaço Júlia, batizado com o nome de uma mulher de 77 anos que morreu na freguesia de Santo António às mãos do marido, recorrem mais mulheres, mas também homens (75 no ano passado), pessoas da comunidade LGBTI, idosos e crianças.

Para Vasco Morgado, seriam necessários mais espaço idênticos para ajudar as vítimas deste flagelo.

O centro alertou para a "necessidade real" de abrir na cidade mais quatro espaços para que toda a cidade ficasse abrangida por este tipo de projeto, que "infelizmente é tão necessário nos dias de hoje, porque a violência doméstica é transversal a toda a sociedade".

Não é por ter poucos estudos, ter muitos estudos, não é nada disso. Isto é transversal a toda a sociedade", lamentou.

A freguesia de Santo António, a mentora desta iniciativa, dispõe de três técnicos para este projeto e a PSP dez agentes para um espaço que funciona "24 horas por e 365 dias por ano".

Sobre se estava à espera do espaço ter uma afluência tão grande, Vasco Morgado disse que não: "Isto era uma caixa que ia ser aberta pela primeira vez. Portanto, não havia grande estatística que nos pudesse ajudar".

Mas abrimos uma caixa de pandora porque as pessoas passaram a ter um espaço específico, que não tem o estigma pesado de uma prisão", e começaram a recorrer a ele, afirmou o autarca

A partir daqui quem abrir outros equipamentos já "pode ter uma noção" do que vai acontecer, acrescentando: "Ao contrário de nós, que não tínhamos" nenhuma referência.

Portanto, isto foi abrir uma caixa de pandora que, infelizmente, se revelou necessário", sublinhou.

Vasco Morgado disse ter um "orgulho imenso" de ter uma equipa a trabalhar consigo que se "presta a estas aventuras, porque foi um pontapé no escuro".

Segundo o Relatório Anual de Monitorização da Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna, em 2018, a PSP e a GNR receberam uma média de 2.203 participações por mês, 72 por dia e três por hora.

No total foram registadas, no ano passado, pelas forças de segurança 26.432 participações de violência doméstica, 11.913 das quais pela GNR e 14.519 pela PSP, correspondendo a uma diminuição de 1,2% face a 2017.